Sinal de Menos #12, vol. 1

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Após outro longo intervalo, publicamos aqui mais uma edição dupla de Sinal de Menos.

O mundo do capital segue seu curso de colisão, como diagnosticamos em números anteriores da revista. De 2014 para cá, passando pelo “golpeachment” de 2016, o Brasil confirma-se na vanguarda dos processos mundiais de retrocesso. A retomada do poder por uma camarilha de conspiradores e tecnocratas blindados pela mídia, verdadeiros usurpadores profissionais da pilhagem social, que por uma década toleraram os aprendizes da rapina sistemática oriundos do meio sindical para fins de “gestão da barbárie”, só pode nos conduzir agora a uma maior destruição dos direitos sociais e a um domínio cada vez mais rígido da lógica do mercado – na verdade, do capital global em fase de esgotamento de sua valorização real.

Um processo de estilhaçamento social para o qual a palavra “golpe” começa a parecer inadequada, como Paulo Arantes notou ainda há pouco, considerando-se que tudo foi conduzido aparentemente na mais estrita conformidade das leis. É claro que com as devidas torções interpretativas de sentido, deixando coexistir lado a lado casos em que elas se aplicam e não se aplicam, tudo em certo grau dependendo do casuísmo do bloco de poder mais forte do momento. Por outro lado, parece que o próprio estado de exceção redefine suas formas quando um ordenamento social que já o aplicava em certos espaços não é cancelado e suspenso para implantar uma outra Ordem, dessa vez mais rígida e com um projeto de integração abertamente autoritário como o de 1964, mas para implantar a rapina e a desintegração social sob a capa ideológica da “legalidade democrática”, da restauração das “liberdades” e da “lógica do mercado”. Na consciência social e na opinião forjada pela indústria da cultura pode até parecer que tudo vai voltando ao normal. Se não estamos enganados, hoje vivemos algo como uma renaturalização das estruturas fetichistas do capital. O resultado mais claro disso foi o avanço da direita em todo o país nas últimas eleições municipais e a impotência da massa diante da “ponte para o retrocesso” que vai sendo construída.

Contudo, de maneira mais ou menos prevista após a crise de 2008, o declínio do preço das commodities, o aumento do déficit fiscal, da frustração de receitas, além da ampliação insana de pagamentos de juros da dívida pública, o Brasil entra na rota do desfiladeiro das modernizações retardatárias. A normalidade é pura ideologia. Não por acaso as reformas arrasa-quarteirão planejadas surgem no momento exato do agravamento da crise, logo após o novo tipo de golpe palaciano inventado. Da destruição prometida pela reforma previdenciária à reforma trabalhista, da reforma do Ensino Médio e do SUS à liquidação geral do patrimônio público até, enfim, a chamada “PEC do fim do mundo”, o que aparece claro já na superfície é a imposição do mais puro economicismo, para o aplauso dos mercados. O que é imposto o mais velozmente possível através de um governo ilegítimo e inimigo do debate público, mediante a estratégia terrorista-midiática “suave” campeã em indignação seletiva, um setor comprado por gordas verbas de publicidade, vale lembrar. Um conjunto de forças conservadoras que insufla uma incontável perseguição antiesquerda, digna dos dias da guerra fria. “Ordem e progresso”: até mesmo o lema positivista da bandeira foi ressuscitado. Eis aí a nossa contribuição para a renovação da Doutrina do Choque, tal qual anunciada por Naomi Klein.

Como estamos na periferia, porém, o buraco é sempre mais embaixo e parece não haver limite para a rapina e a degradação social, bem como para a violência repressiva que se seguirá, e que no momento, aliás, deve estar sendo preparada. O ritmo brasileiro daqui para diante parece ser então o de uma espiral paradoxal de “reformas destrutivas” em doses cavalares, também conhecidas eufemisticamente como “ajustes neoliberais” e “políticas de austeridade”. Se tudo isso se confirmar, teremos um claro desmonte do Estado nacional, não evidentemente como sua superação por formas de democracia direta, participativa e descentralizada, mas antes como sua anexação quase imediata pelas forças do capital e dos estratos burocráticos corrompidos. O aumento das disparidades sociais é certo, embora não esteja fora de cogitação a retomada de investimentos e de um certo crescimento de tipo “canibal” sobre a força de trabalho e os recursos naturais. Se uma tal decomposição social assim se realizar ela também será passível de ser virada dialeticamente do avesso, prenunciando a ruptura do novo consenso de aço que renaturalizou o fetiche. Que tipo de lutas e práticas sociais isso suscitará é uma página inteiramente em branco.

Ocorre que no momento em que as forças produtivas atingem níveis que poderiam libertar a sociedade não apenas do trabalho excedente, mas do trabalho abstrato em geral e do sistema produtor de mercadorias como totalidade, mais ela se enreda nessas formas, mais trabalho ela exige de suas criaturas deformadas, que, por uma espécie de “encantamento”, como diria Adorno, começam a incorporar positivamente a lógica do desmanche e da dessolidarização como destino inevitável e até mesmo como oportunidade de ganhos extraordinários. É que o estado de exceção inaugura todo tipo de suspensão de regras da civilidade burguesa, incluindo seu sujeito histórico liberal “responsável”, subjugado pelas formas de um sobrevivencialismo narcísico e de uma regressão que traz à tona formas de preconceito e ódio reativo. É assim que a CAPA da revista elaborada por FELIPE DRAGO, inspirada em desenho do “Proyecto Cabra”, remete aos sonhos malignos de ódio cego e sem direção que estão sendo destravados. É como se na ausência do grande Outro uma série de pequenos outros desabrochasse sem pautas, a não ser a da (auto)destruição. Após a queda do pai e da erosão da Lei, ainda mais corroída pela acumulação digital e flexível, a massa neoliberalizada pelos fundos “foge para as colinas”, nas asas de governos conservadores, francamente autoritários ou apenas austericidas, como se vê em diversas partes (EUA, Ucrânia, Hungria, Turquia, Filipinas, Tailândia, Egito, Brasil, Grécia, Espanha, França, dentre outros), e isso sem falar no Estado Islâmico e nas dezenas de regimes monárquicos, fundamentalistas e ditatoriais espalhados pelo mundo. A incorporação da lógica da concorrência no caráter e no comportamento por meios tão diversos quanto o emprego, a mídia e as redes sociais, a escola e a cultura do empreendedorismo só encontrará seu limite se a objetividade da crise aparecer como crise do sistema do capital e não deste ou daquele governo isolado. Para isso servirá a teoria crítica que se acumula à margem da práxis existente, necessária e urgente como momento de um longo processo de transição, mas frágil e limitada para as tarefas que despontam no horizonte.

Esses temas não deixam de comparecer neste novo número de Sinal de Menos, em que temos dois dossiês: ANSELM JAPPE e JAMES JOYCE.

A revista inicia-se com uma nota explicativa ao DOSSIÊ JAPPEAs Aventuras do Sujeito – traduzido por Fred Lyra e Pedro Henrique de Mendonça Resende, aos quais a revista gostaria muito de agradecer publicamente. Partindo da teoria da Wert-Spaltung (que vem sendo traduzido por “dissociação-valor”, ou “valor-cisão” [de gêneros]) de Kurz e Scholz (entre outros), ANSELM JAPPE tece as relações entre fetichismo da mercadoria e narcisismo, que poderia ser interpretado como o lado subjetivo do primeiro. Em questão – para nós aberta – fica a forma do eu moderno ou a forma do sujeito em geral (nesse caso, incluindo toda a estrutura pulsional freudiana). O dossiê reúne primeiramente um pequeno excerto de ENTREVISTA concedida a um colaborador da editora portuguesa Antígona, em que o escritor apresenta o projeto de seu livro intitulado As aventuras do sujeito, a ser publicado na França em 2017. Seguem-se três artigos publicados entre 2012 e 2016 por Jappe, que gentilmente autorizou sua tradução: NARCISISMO E FETICHISMO DA MERCADORIA – Algumas observações a partir de Descartes, Kant e Marx; NARCISO OU ORFEU? – Observações sobre Freud, Fromm, Marcuse e Lasch; e DA “AURA” DOS ANTIGOS MUSEUS E DA “EXPERIÊNCIA” DOS NOVOS.

O segundo DOSSIÊ, dedicado a JOYCE, inicia-se com dois ensaios corajosos de RAPHAEL F. ALVARENGA. No primeiro deles – FORMA, ESTILO, PASTICHEConsiderações sobre o Ulysses de Joyce – o autor expõe alguns pressupostos para uma leitura crítica e materialista do escritor irlandês, especialmente dessa obra maior do modernismo literário que continua sendo o Ulysses. No segundo – HAMLETS DE FARDA NÃO HESITAM Uma leitura materialista do Ulysses –, uma crítica refinada desse romance é buscada de acordo com o trajeto anteriormente apresentado, através de uma série de interpretações de pontos cruciais em cada capítulo da obra. Tal leitura redescobre o coração pulsante de sua forma heterogênea, capaz de incorporar estilos os mais variados sem perder nada em sua determinação pelo conteúdo social, fundado que está na penetração da lógica do capital numa sociedade semiperiférica e dependente, com personagens moldadas e mobilizadas pelo processo, numa espécie de mimese construtiva exuberante de uma base de vida miserável. E que apenas em sua desolação e identificação negativa pode suscitar algum desejo de ruptura. O dossiê finaliza com o artigo de CLÁUDIO R. DUARTE – PERIFERIA/PARALISIAA figuração do inferno colonial no primeiro Joyce. O ensaio mostra a evolução do escritor de Chamber Music a Dubliners, no início do séc. XX, interpretando sua recriação paródica do Inferno de Dante, especialmente no conto cortante intitulado “Counterparts”. Temos aí um Joyce mais seco, mais objetivo, mais econômico, mas já afinado às dissonâncias de uma sociedade neocolonial que delineia incessantemente uma espécie de “movimento paralítico”: cristalizado entre o mito e a história, o ensaio de mudança e o seu desaparecimento, soçobrando na mesmice do estado de exceção irlandês e da abstração real capitalista. De certo modo, os dois dossiês da revista parecem formar um vínculo subterrâneo na medida em que pensam os antagonismos estruturais constitutivos do sujeito e do indivíduo modernos.

A revista prossegue com questões relacionadas ao trabalho, à crítica musical e aos movimentos possíveis na sociedade urbana. No artigo de título irônico – O TRABALHO EM MARX É ONTOLÓGICO, #SQN; Crítica categorial da forma limitada da atividade humana – THIAGO FERREIRA LION e THIAGO ARCANJO CALHEIROS DE MELO destrincham o suposto caráter ontológico da categoria trabalho em Marx. O artigo traz diversas citações nas quais o revolucionário alemão deixa entrever uma diferente forma de lidar com tal categoria, concebendo-a como radicalmente histórica. O texto visa tratar o tema de maneira simples e renovada, partindo de perguntas como: “regar as plantas é trabalho?”. Tal abordagem tem o intuito de demonstrar que a atividade materialmente determinada em si importa menos para sua categorização que sua relação com outras atividades abstratamente comparadas por meio do mercado, afinal, poucos considerariam regar seu próprio jardim como sendo trabalho, mas ninguém negaria que um jardineiro que “ganha” para regar o jardim de outrem está trabalhando. Apesar do esforço em dialogar o mais amplamente possível, o artigo expõe formulações bastante complexas, todas postas a partir do panorama histórico do desenvolvimento das relações mercantis e da oposição entre realidade e consciência. Esta última reflexão, por sua vez, nos revela identidades entre a crítica categorial esboçada em Marx – e desenvolvida pela Crítica do Valor – e aspectos fundamentais da teoria de Hegel.

A seguir, temos o ensaio de FRED LYRA, intitulado POR UMA NOVA CRÍTICA DA MÚSICA Primeiras notas, que busca introduzir algumas ideias para a renovação deste que é, historicamente, um dos principais eixos da crítica da arte e ideologia: a crítica musical. Inicia com um diagnóstico feito a partir das ideias do filósofo Paulo Arantes sobre a temporalidade atual da música. No segundo momento, nos deparamos com uma crítica e análise daquela que parece ser a forma de escuta predominante no mundo presente: a forma do condomínio. Na sequência, o texto discute Simbolismo e Sentido, Função e Utilidade onde aparecem algumas questões fundamentais em torno desses quatro conceitos. Por fim, o artigo sintetiza algumas diretrizes básicas em relação à posição do personagem ou sujeito que é um dos eixos da questão: o músico – muitas vezes esquecido em detrimento do objeto música.

Ao final temos dois ensaios que articulam reflexões sobre um processo de reversão prática do existente. Em ENTRE UMBRAIS E VIRTUALIDADES – Mundos possíveis?, HELENA CASTELLAIN BARBOSA DE CASTRO dá um tempero mais otimista à revista, relembrando as questões lefebvrianas que nascem no seio de uma “sociedade urbana” em vias de se completar, concentradora que é das mais agudas contradições do espaço, apontando-nos que o trem desgovernado em que viajamos pode descarrilar assim que forem ultrapassados certos umbrais teóricos e práticos. Já no artigo de FRANK RUDA (gentilmente indicado e traduzido por Luiz Philipe de Caux), COMO AGIR COMO SE NÃO SE FOSSE LIVREUma defesa contemporânea do fatalismo, o autor baseia-se em Descartes, Kant, Hegel e Marx – tirante este último, eis a tradição duramente criticada por Jappe – a fim de oferecer uma abordagem crítica do estado subjetivo hoje predominante: a indiferença. Suas coordenadas conceituais são elaboradas sistematicamente e é mostrado em que sentido ela implica, em última análise, uma concepção problemática e mal compreendida de liberdade. Tendo como pano de fundo essa análise, o artigo defende o fatalismo como um meio possível para enfrentar estados de indiferença e, desse modo, dar um passo da análise crítica à formulação afirmativa de um princípio de orientação: “age como se não fosses livre”. Se isso é ou não uma questão plausível, para dizer o mínimo, fica para o leitor julgar e decidir. O fato menos controverso parece ser que a realidade degradada atual não pode deixar as pessoas indiferentes ad eternum.

Por isso mesmo a revista termina com a salada de palavras grotescas, colhida e servida na hora da sessão de admissibilidade do IMPEACHMENT de Dilma, na Câmara dos Deputados, captada por uma arguta observadora, CAMILA PAVANELLI DE LORENZI, a qual agradecemos pelo registro da farsa tragicômica do desmanche nacional.

Em outros termos, e como reforçará nosso segundo volume, o fim do mundo da mercadoria já chegou para a maioria – talvez não apenas no seu condomínio.

Novembro de 2016.

[-] Sumário #12, vol. 1

Editorial

DOSSIÊ ANSELM JAPPE

Projeto As aventuras do sujeito
Nota introdutória
Pedro Henrique de Mendonça Resende

Entrevista com Anselm Jappe

Narcisismo e fetichismo da mercadoria
Algumas observações a partir de Descartes, Kant e Marx
Anselm Jappe

Narciso ou Orfeu?
Observações sobre Freud, Fromm, Marcuse e Lasch
Anselm Jappe

Da “aura” dos antigos museus e da “experiência” dos novos
Anselm Jappe

DOSSIÊ JAMES JOYCE

Forma, estilo, pastiche
Considerações sobre o Ulysses de Joyce
Raphael F. Alvarenga

Hamlets de farda não hesitam
Uma leitura materialista de Ulysses
Raphael F. Alvarenga

Periferia / paralisia
A figuração do inferno colonial no primeiro Joyce
Cláudio R. Duarte

ARTIGOS

O trabalho em Marx é ontológico, #SQN
Crítica categorial da forma limitada da atividade humana
Thiago Ferreira Lion e Thiago Arcanjo Calheiros de Melo

 Por uma nova crítica da música
Primeiras notas
Fred Lyra

Entre umbrais e virtualidades
Mundos possíveis?
Helena Castellain Barbosa de Castro

Como agir como se não se fosse livre
Uma defesa contemporânea do fatalismo
Frank Ruda

(…)

Impeachment
Memória do 1o. ato da farsa brasileira de 2016

Sinal de Menos #11, vol. 2

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E aqui segue o segundo volume deste número 11 de Sinal de Menos.

Vem na hora crítica em que a totalidade há muito perdida parece ainda mais eclipsada por toneladas de discurso ideológico à direita em conjunção com a tentativa de destruição ou neutralização prática de toda oposição política, dinamitando os caminhos clássicos trilhados pela esquerda até então.

Ao nosso redor, nesse sumo breu, um barulho monstruoso e a tarefa de entender teoricamente o desastre que na verdade já ocorreu e apenas se aperfeiçoa – da favelização mundial à crise energética e ambiental global, do discurso neoliberal totalitário aos projetos de reconstrução de uma natureza pós-biológica e pós-humana – sob o pano de fundo inconsciente dos limites que o capital põe para o próprio capital a cada nova rodada da acumulação e de uma administração emergencial de crises em cadeia. Eis aí as capas de Felipe Drago para ilustrar esse trajeto pontilhado pelos ensaios deste número duplo da revista, em que os trilhos de saída desse mundo ofuscado precisarão ser reconstruídos palmo a palmo – se caso o que se costuma denominar “sociedade” quiser buscar de fato uma saída. A situação que vem à mente é a daqueles burgueses viajantes de um trem na miniparábola de Kafka publicada em nosso terceiro número:

Nós estamos, vistos pelo olho manchado de mundanidade, na situação de viajantes de uma estrada de ferro que sofreram um acidente dentro de um longo túnel, e mais especificamente, em um ponto no qual não se vê mais a luz do princípio e em que se vê a luz do final de forma tão exígua que o olhar irá buscá-la constantemente e irá perdê-la constantemente, de forma que não serão nem mesmo distinguíveis o começo e o fim. Ao nosso redor, porém, encontramos, na confusão dos sentidos ou na mais alta excitabilidade dos sentidos, uma barulhenta monstruosidade e um encantador ou tedioso jogo caleidoscópico, a depender do humor ou do ferimento de cada um. O que devo fazer? ou: Para que devo fazer isso? não são perguntas dessas paragens.

Conforme anunciado no editorial do primeiro volume deste número, a revista inicia com uma ENTREVISTA especial de PAULO ARANTES com Marcos Barreira e Maurilio de Lima Botelho no início deste ano, em que o grande crítico brasileiro retoma alguns dos temas abordados em seu último livro, O novo tempo do mundo (e outros estudos sobre a era da emergência) além de outros assuntos recentes: da capitulação petista à recente “direitização da direita” após as Jornadas de Junho de 2013, passando pela discussão de temas capitais de uma série de críticos como Wacquant, Marcuse, Debord e Lasch, concentrando-se nas ilusões do desenv olv imentismo dito “emergente” e em v ários desd obramentos da crise sistêmica global e do novo regime de tempo histórico diagnosticado como um regime de exceção e de urgência permanentes.

Nossa seção de ARTIGOS abre com um ensaio de DANIEL FELDMANN, SOBRE O LIMITE ABSOLUTO DO CAPITAL (Especulações acerca de uma hipótese teórica), em que o autor discute a hipótese fundamental da teoria das crises de Marx tal como elaborada pelos círculos alemães da crítica do valor, Krisis e Exit!.

Em A POTÊNCIA DO ABSTRATO (Resenha com questões para o livro de Moishe Postone), CLÁUDIO R. DUARTE faz uma apresentação dos temas de Tempo, trabalho e dominação social, livro do autor norte-americano recém lançado no Brasil, focando no conceito de trabalho como mediação social abstrata, para em seguida colocar algumas objeções a sua formalização e desenvolvimentos, principalmente quanto à tentação de abstrair o movimento fetichista do Capital de seus agentes, que tanto o personificam quanto o concretizam socialmente, não apenas como funções abstratas mas como “funções” incompletas, não totalmente objetivas, que se realizam através das lutas de classes semeadas e afloradas no seio de estruturas e espaços sociais particulares, mais ou menos abertos ao devir e ao indeterminado, sem metafísica e sem teleologia inerentes. O que permite a Marx conceber, além do fetiche do trabalho e do capital, o fundo “abissal” da formação, a qual tende a cindir o corpo social em campos antagônicos, tornando a contradição objetivada por assim dizer “visível” e “nomeável”. Eis o que permite repensar o inominável “sujeito” de classe gerido e arrastado até mais ver pelo sistema de acumulação, mesmo em seu aparente esgotamento formal.

No terceiro ensaio deste número, A DEMOCRACIA E O SONO DA HISTÓRIA (Fragmentos), RAPHAEL F. ALVARENGA reflete sobre as variações do conceito de democracia no ocidente a partir de observações de críticos como Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Mario Tronti e Guy Debord.

Em DIREITO E INTERCÂMBIO SOCIALHipóteses sobre a forma e a função do direito à luz do desenho histórico-estrutural de Kojin Karatani, JOELTON NASCIMENTO traça comparações históricas de noções do direito em diversas formações históricas a partir do livro mais recente do teórico japonês Kojin Karatani, no entendimento de que essa operação contribui para a reconstrução da crítica anticapitalista do direito.

Os dois próximos ensaios fazem uma incursão em clássicos do marxismo. Em ISAAK RUBIN E GYÖRGY LUKÁCSAs origens da “leitura crítica” de Marx na década de 1920, MARCOS BARREIRA propõe uma comparação de dois teóricos pioneiros daquilo que se pode designar como uma leitura crítica do fetichismo e da reificação das relações sociais capitalistas. Enquanto por outro lado, ROBERT BÖSCH, autor ligado ao Grupo Krisis, propõe uma análise crítica do politicismo gramsciano, em O RENASCIMENTO MILAGROSO DE ANTONIO GRAMSCI, apontando, por exemplo, alguns paradoxos de um teórico marxista da modernização burguesa tardia capaz de ser apropriado ao mesmo tempo pela esquerda e pela direita.

A revista continua com análises de questões empíricas fundamentais. Em FAVELIZAÇÃO MUNDIAL – O colapso urbano da sociedade capitalista, MAURÍLIO LIMA BOTELHO explora um dos aspectos mais evidentes da crise urbana, o processo de favelização mundial. Fazendo uso de vários relatórios oficiais do programa das Nações Unidas para problemas urbanos, o texto aponta para alguns traços originais nesse processo que o tornam ainda mais dramático e indicam um colapso das estruturas urbanas: a urbanização sem geração de empregos, a dinâmica de urbanização puxada pela favelização, a formação de um mercado informal em torno dos imóveis e até mesmo uma incipiente reintegração miserável de trabalho e moradia. O artigo assume um tom descritivo cujo papel é acumular características que serão posteriormente analisadas teoricamente numa reflexão mais profunda sobre o colapso urbano capitalista. Em CIBERATIVISMO, O PARADIGMA DO ANTIPODER E AS FISSURAS DO CAPITALISMO (A revolução em tempos de internet), SÍLVIA RAMOS BEZERRA estuda as práticas do ciberativismo como possíveis maneiras de “fissurar” o poder capitalista, quando pensado em sua inserção num processo maior de contraposição social ao sistema.

Temos a seguir três textos que tratam de questões materiais e ecológicas em sua relação com o capitalismo. Em PÓS-NATUREZAPilhagem ecológica e os monstros do capital, ANDRÉ VILLAR GOMEZ trata dos delírios do capital consubstanciados em projetos tecnológicos de manipulação da natureza biológica e humana – que teriam como resultado final a realização do sonho do capital: livrar-se da matéria. Em seguida, segundo tradução de Daniel Cunha, JOHN BELLAMY FOSTER, BRETT CLARK e RICHARD YORK, no artigo O CAPITALISMO E A MALDIÇÃO DA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, tratam do “Paradoxo de Jevons”, segundo o qual a maior eficiência no uso da energia resulta não em sua conservação, mas em consum o aumentado. Os autores resolvem o “paradox o” com teoria marxiana, mostrando que, no capitalismo, a eficiência se converte em uma força destrutiva , contestando assim a tese da “desmaterialização”. De certo modo complementando esse assunto, DANIEL CUNHA investiga a questão da viabilidade material de uma transição solar sem carência energética e sem aquecimento global catastrófico, no artigo A TRANSIÇÃO SOLAR COMO POSSÍVEL- IMPOSSÍVEL. Através de um modelo matemático, mostra-se que ela é possível, mas é truncada pelo m od o de socia lizaçã o baseado na valorização do valor, configurando de forma visível a contradição entre valor e riqueza material.

Finalmente, em O DINHEIRO COMO CORAÇÃO DAS TREVASNota sobre o último livro de Robert Kurz, DANIEL CUNHA comenta em breve resenha o último livro do autor alemão, intitulado Dinheiro sem valor, mostrando que o livro publicado postumamente trouxe importantes desenvolvimentos teóricos na obra do autor.

A revista fecha com O QUE FALTA? – um texto em forma de versos ou pontas soltas, difícil de classificar (poema, miniconto, paródia, recorte irônico de discursos ready made?), em que FRANCISCO C. enumera elementos do jargão empresarial contemporâneo e sua máquina de adestramento, estimulando no leitor a salutar aversão ao imperativo totalitário da mercadoria e do trabalho abstrato.

A revista continua aceitando contribuições, tendo a intenção de ampliar a participação e a colaboração, dada ainda a necessidade de ampliar os(as) editores(as) permanentes da revista. Boa leitura!

Maio de 2015.

[-] Sumário #11, vol. 2

Editorial

Entrevista

Paulo Arantes, com Marcos Barreira e Maurilio Lima Botelho

Artigos 

Sobre o limite absoluto do capital
Especulações acerca de uma hipótese teórica
Daniel Feldmann

A potência do abstrato
Resenha com questões para o livro de Moshe Postone
Cláudio R. Duarte

 A democracia e o sono da história
Fragmentos
Raphael F. Alvarenga

Direito e intercâmbio social
Hipóteses sobre a forma e a função do direito à luz do desenho histórico-estrutural de Kojin Karatani
Joelton Nascimento

Isaak Rubin e György Lukács
As origens da “leitura crítica”de Marx na década de 1920
Marcos Barreira

O renascimento milagroso de Antonio Gramsci
Robert Bösch

Favelização mundial
O colapso urbano da sociedade capitalista
Maurilio Lima Botelho

Ciberativismo, o paradigma do antipoder e as fissuras do capitalismo
A revolução em tempos de internet
Sílvia Ramos Bezerra

Pós-natureza
Pilhagem ecológica e os monstros do capital
André Villar Gomez

O capitalismo e a maldição da eficiência energética
John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York

A transição solar como possível-impossível
Daniel Cunha

O dinheiro como coração das trevas
Nota sobre o último livro de Robert Kurz
Daniel Cunha

O que falta?
Francisco C.

Sinal de Menos #11, vol. 1

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“Nunca se viu tanto fim” – disse certa vez Robert Kurz – e ao que parece, antes que o fim chegue e arranque de vez os fundamentos do chão, agora iremos penar uma avalanche conservadora mundial cujo paralelo histórico será difícil de encontrar nos livros, salvo nos anos da grande crise de 29, nos passos truncados e por fim malogrados da esquerda nos anos subsequentes. Os anos da ascensão mais colossal das forças reacionárias em escala planetária, momento que nos concerne de algum modo ainda hoje, pois, como vaticinou Walter Benjamin, “por trás de todo fascismo, há uma revolução de esquerda fracassada”.

Aqui circundamos o escopo desta edição de Sinal de Menos. Sem forçar a nota nessa comparação histórica – mas sem tampouco abdicar de sua chave de leitura, pois a barbárie neoliberal e as contraposições a ela tendem a recrudescer a partir de agora – a atual avalanche conservadora brasileira e mundial e os obstáculos teóricos e práticos de uma superação imanente da crise global são os temas mais gerais deste volume da edição dupla da revista. Daí a encruzilhada sombria sugerida pela capa de Felipe Drago.

Por aqui, em clave menor, a esquerda brasileira vai sofrendo mais uma grande derrota histórica com a eleição do congresso nacional mais conservador desde 1964 e a capitulação do governo petista recém-eleito em meio a uma crise econômica e política em parte promovida por ele próprio, em parte porque vai inexoravelmente batendo nos limites do financiamento interno, da concorrência e da crise globais.

No mundo todo, nessa conjuntura tenebrosa, brilha a luz bruxuleante de uma grande presença-ausência: de um lado, ensaios de contestação teórica e prática da sociedade das mercadorias, de outro, os aparelhos de coação e captura de todo movimento vivo sob a jaula de aço das medidas de austeridade e de promoção neoliberal de um mundo privado da razão, moldado pela economicização da vida até a morte e as medidas de emergência reprodutoras do sistema.

No horizonte, apenas a “tempestade perfeita” de uma “direitização da direita” (Paulo Arantes) que ofusca toda visão e forja os seus filhotes mimados, amantes da jaula em que nasceram – nadando na superfície do mar de seus privilégios, ou muito menos que isso – liberando o ódio e os cães de guarda contra quem pretende serrar as suas barras. O risco é então o de regredirmos em toda linha numa espécie de ―contrarrevolução sem revolta‖, algo que vai dando nó na cabeça dos marcuseanos herdeiros de 68. Com o que, para nós, então, é preciso repensar o que se tinha por certo, a suposta rebelião ou revolução inscrita no curso do progresso das forças produtivas, mas que é ainda pouco ou nada na falta da constituição de um movimento prático de êxodo da imanência do Capital. Como já dizíamos na apresentação da revista em nosso primeiro editorial: “as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para a reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador.”

Após um longo intervalo devido à conjuntura movimentada do cenário eleitoral, Sinal de Menos chega mais encorpada, com uma edição dupla. Este primeiro volume contém artigos mais focados nos aspectos conjunturais, partindo de uma ENTREVISTA de CHARLES REEVE sobre o renascer de movimentos contestatórios no cenário mundial, da China à Europa e Estados Unidos, com destaque para a crise social na Espanha e o movimento dos Indignados. O segundo volume terá a honra de trazer uma entrevista com PAULO ARANTES, um dos mestres da análise da formação brasileira e da crítica do estado de emergência mundial, que se constitui como o pano de fundo teórico de muitas de nossas análises nas duas edições.

A seção de ARTIGOS inicia-se com o texto de JOELTON NASCIMENTO, ANTICAPITALISMO PARA O SÉCULO XXIUm breve panorama da nova crítica do valor, em que o autor apresenta em linhas gerais as teses defendidas pela Nova Crítica do Valor (NCV), consolidada principalmente em torno das revistas Krisis e Exit!, além da discussão de referências sobre alguns de seus precursores.

Escrito por ocasião dos 15 anos das manifestações de Seattle (novembro de 1999), o segundo artigo, ESTAMOS PERDENDO!, de RAPHAEL F. ALVARENGA, propõe um balanço crítico do altermundialismo do início do século, contrastando-o em seguida com formas de protesto e teorizações mais recentes.

Em seguida, publicamos o ensaio de ANDRÉ VILLAR GOMEZ e MARCOS BARREIRA, A CATÁSTROFE COMO MODELOAgronegócio, crise ambiental e movimentos sociais durante o decênio 2003-2013. Com riqueza de detalhes empíricos e uma análise crítica refinada pelas lentes da crítica do valor, os autores comparam e confrontam as ideologias e os reais custos socioambientais do complexo agroindustrial brasileiro montado nas últimas décadas, apontando as irracionalidades de tal modelo agrário.

Em SOCIALISMO OU BARBÁRIE?, DANIEL CUNHA comenta a reação de certos setores da esquerda ao recente atentado na França. O que se desvela é que certas ideologias identitárias pretensamente de esquerda do capitalismo de crise, na falta de um arsenal crítico adequado, acabam por borrar a distinção entre as lutas emancipatórias e o terrorismo e, no limite, acabam por legitimar a barbárie.

Na sequência, temos sete textos que pensam a ascensão conservadora no atual contexto. Em A ESPUMA, A ONDA E O MAR DA REAÇÃOCruzando o fantasma autoritário brasileiro, BOB KLAUSEN busca caracterizar as forças conservadoras que retomaram o espaço público brasileiro nos últimos anos, decifrando seu imaginário autoritário por meio das estruturas e práticas sociais que o constituem. Em O OTIMISMO E O PÊNDULO: o duro aprendizado de caminhar em terreno movediço, DOUGLAS ANFRA desdobra as dificuldades de organização dos movimentos sociais na atual conjuntura, o que nos faz questionar todo “otimismo da prática”, considerando a relativa perda de força da mobilização de esquerda e a ascensão da direita no país, ambos escapando a esquemas conceituais prévios. No próximo artigo, DESTINOS DO ÓDIO SOCIAL E A ENCRUZILHADA DA ESQUERDA, BRUNO KLEIN esboça uma fina análise desse sentimento primário expresso pela direita nas ruas como uma espécie de retorno do recalcado. O autor mede os possíveis riscos, nesse momento, de uma adesão social dos oprimidos e estropiados a esse mecanismo compensatório, que os levaria à identificação com uma classe cuja ideologia já não reivindica o menor verniz de civilidade. Em “FOGO AMIGO”A incubadora petista da avalanche conservadora, PAULO MARQUES traça uma série de elementos históricos envolvidos na capitulação do Partido dos Trabalhadores, da apologia indireta à participação direta na reprodução da ordem capitalista, por fim ajudando a chocar o ovo da serpente desse ―fascismo à brasileira‖ que hoje vai pipocando nas ruas e no espírito das massas. Em seguida, G. ÉMEUTES, em PASSEIO PELAS GREVES PARANAENSES DA EDUCAÇÃO EM ALGUMAS NOTAS, faz um balanço das greves contra o governo tucano de Beto Richa e do processo de organização contra o cerco autoritário que ele impõe. No próximo texto, temos o ensaio de ATANÁSIO MYKONIOS, SOBRE A MAIORIDADE PENALUma ação preventiva do capital, o qual traça a relação entre o projeto de redução da maioridade penal e a desvalorização da força de trabalho no país, segundo o jogo de determinações econômicas, políticas e culturais. Finalmente, em GERAÇÃO SARRAZIN (Breve esboço da gênese da nova direita alemã), de TOMASZ KONICZ, autor dos círculos alemães de crítica do valor Krisis, Exit! e Streifzüge, passa-se à discussão da configuração do neofascismo islamofóbico do PEGIDA e de outros aspectos da reação e do caráter autoritário na Europa.

Em seguida, temos um texto de crítica literária. Trata-se da análise de um romance clássico ainda hoje subestimado e mal interpretado: em ESTADO DE PESTE / ESTADO DE SÍTIOPara reler A peste, de Camus, CLÁUDIO R. DUARTE busca arquitetar o ponto de vista de seus referentes históricos captados pela malha de seus significantes enigmáticos, muitos inclusive surpreendentes, em que é refletida tanto a experiência dos regimes de exceção, a partir da África colonial francesa e da ocupação nazista na França, quanto a organização prática de uma ―revolta‖ fundada numa relação ética solidária entre indivíduo e grupos socialmente construídos. Acompanhando esse ensaio, temos uma tradução de um texto conhecido de JEAN-PAUL SARTRE, escrito logo após o fim da grande guerra: O QUE É UM COLABORADOR? – o qual desenha uma fisionomia social e moral do indivíduo que colabora com o domínio nazista e o governo de Vichy. Que fique aqui a sugestão de se traçar um dia um paralelo deste colaborador sombrio com o “colaborador” da empresa e do mundo neoliberal atual.

Em MISÉRIAS DO PRIMITIVISMO, DANIEL CUNHA resenha Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, de Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. O autor critica as suas tendências malthusianas e regressivas, que resultam de um déficit dialético e materialista da crítica do capital e das forças produtivas, que no entanto podem soar atraentes no clima de “fim do mundo” da crise ecológica global.

A revista fecha com COMUNIZAÇÃO NO PRESENTE, do grupo francês THÉORIE COMMUNISTE. Os autores buscam articular as noções de classe e proletariado no capitalismo de crise – o proletariado como classe negativa e como o seu próprio limite, que coloca a comunização na ordem do dia, aliando crítica radical do valor e perspectiva de classe. Trata-se, de certa forma, do avesso da conjuntura.

Abril de 2015

[-] Sumário #11, vol. 1

Editorial

Entrevista

Os movimentos indignados e a luta de classes
 com Charles Reeve, por Stephane Julien e Marie Xantrailles

Artigos

Anticapitalismo para o século XXI
Um breve panorama da nova crítica do valor
Joelton Nascimento

Estamos perdendo! 
Do altermundialismo à indignação multitudinária: balanço da resistência global quinze anos após Seattle
Raphael F. Alvarenga

A catástrofe como modelo
Agronegócio, crise ambiental e movimentos sociais durante o decênio 2003-2013
André Villar Gomez e Marcos Barreira

Socialismo ou barbárie?
Daniel Cunha

A espuma, a onda e o mar da reação
Cruzando o fantasma autoritário brasileiro
Bob Klausen

O otimismo e o pêndulo 
O duro aprendizado de caminhar em terreno movediço
Douglas Anfra

Destinos do ódio social e a encruzilhada da esquerda
Bruno Klein

“Fogo amigo” 
A incubadora petista da avanlanche conservadora
Paulo Marques

Passeio pelas greves paranaenses da educação em algumas notas 
G. Émeutes

Sobre a maioridade penal
Uma ação preventiva do capital 
Atanásio Mykonios

Geração Sarrazin 
Breve esboço sobre a gênese da nova direita alemã
Tomasz Konicz

Estado de peste / Estado de sítio 
Para reler A peste, de Camus
Cláudio R. Duarte

O que é um colaborador? 
Jean-Paul Sartre

Misérias do primitivismo 
Resenha de Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins
Daniel Cunha

Comunização no presente
Théorie Communiste

Sinal de Menos #10

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Versão impressa

Caros leitores,

Chegamos à nossa revista no 10, ou décimo primeiro volume se considerarmos a edição especial sobre os Protestos de Junho. Não podemos deixar de constatar que há um acúmulo em nossas análises, que se expressa também na qualidade das contribuições externas. Disso resulta um conjunto de textos que configura um mosaico espelhado de reflexos e contradições, sob o fio comum da crítica categorial marxiana. É isso que retrata a capa de Felipe Drago.

A revista está imersa no espírito do tempo, que é um espírito de crise. Nessa penumbra social, nos esforçamos para encontrar o fio da crítica emancipatória. Esta edição se caracteriza pelo peso destacado da crítica categorial do capitalismo, com vários artigos que se debruçam sobre autores marxianos, buscando suas potencialidades e inconsistências. Percebe-se também um esforço conceitual em relação ao antagonismo social, suas formas e tendências imanentes. Também está presente a já tradicional crítica literária materialista.

A revista começa com uma entrevista que LUCIO COLLETTI concedeu a Perry Anderson em 1974, inédita em nossa língua. Colletti foi um dos precursores da teoria crítica do valor, e é pouco conhecido no Brasil. Na sequência, NUNO MACHADO, em seu texto Da metafísica do capital traça um panorama histórico-conceitual da obra de Colletti. Destaca-se a análise do capitalismo como “metafísica real”, a partir do confronto de Marx, Hegel e Kant.

Em seguida, em Dois rostos ou um vaso JOELTON NASCIMENTO retoma um problema proposto pelo filósofo e crítico cultural esloveno Slavoj Žižek em torno da teoria crítica do capitalismo. O artigo defende a tese de que o problema da paralaxe entre a crítica da economia política e a analítica dos antagonismos sociais permanece aberto e situa a Nova Crítica do Valor no interior desta problemática. No ensejo, faz uma crítica do encaminhamento žižekiano à questão.

Na sequência, em Escravos e servos do capital, RODRIGO CAMPOS CASTRO mostra que o capital fez nascer não apenas o trabalho da mão de obra livre, mas recuperou redefinindo-as formas arcaicas de trabalho nas suas periferias da escravidão e da servidão redivivas. Nessas, o trabalho de atividade supostamente emancipadora tornou-se ou uma praga infernal ou um chamado divino. Confrontando uma configuração com outra, o texto busca esclarecer os motivos e as consequências de longo prazo para esse circo de paradoxos.

O primeiro crítico resenhado nesta edição é Herbert Marcuse, aqui em comemoração ao meio século de publicação de One-Dimensional Man (1964), um livro traduzido no Brasil como A ideologia da sociedade industrial. CLÁUDIO R. DUARTE apresenta a sua contribuição como um convite à releitura do filósofo frankfurtiano, em Nos 50 anos de ‘One-Dimensional Man’: Marcuse e a recusa intempestiva. Segundo o autor, o livro anuncia vários temas de uma crítica radical da sociedade do trabalho e do estado de exceção permanente, da racionalidade tecnológica do capital e da ideologia característica que cimenta o todo. Ao contrário do que se afirma, a  sociedade unidimensional para Marcuse não elimina as contradições e irracionalidades do sistema, que, por isso mesmo, incitam à Grande Recusa inaudita.

Seguindo com os frankfurtianos, em Déficit sociológico ou negação determinada?, RAPHAEL F. ALVARENGA contesta a versão consagrada de que a perspectiva normativa da Nova Teoria Crítica (mais precisamente na figura de Axel Honneth) teria desbancado a démarche crítico-dialética da primeira Escola de Frankfurt (T. W. Adorno e cia.).

DANIEL CUNHA, na sequência, resenha o novo livro de John Holloway, Fissurar o capitalismo. O autor procura mostrar os eixos de sua  teoria, seus pontos fortes e limitações. Como diz o título, Em busca do sujeito perdido, o livro é apresentado como uma tentativa de reinterpretação de um conceito central na obra marxiana – o duplo caráter do trabalho – para redefinir o sujeito. O confronto com outros autores da crítica do valor problematiza questões teóricas importantes.

Apresentamos a seguir a tradução de um texto de NORBERT TRENKLE (Krisis), As sutilezas metafísicas da luta de classes. O autor procura demonstrar, a partir da análise da teoria lukacsiana da reificação e do proletariado, que existem pressupostos metafísicos implícitos na teorização da luta de classes, que se prolonga em autores como Holloway e Negri/Hardt.

Em seguida, a obra de David Harvey é analisada por MAURÍLIO LIMA BOTELHO, em seu Crise do capitalismo e “mundo do trabalho” em David Harvey. O autor critica os momentos subjetivistas da teoria de Harvey, em especial a sua noção do neoliberalismo como um projeto de “restauração do poder de classe”.

Seguem duas resenhas de livros de Anselm Jappe a partir de pontos de vista diversos. Em A forma e o fim, PEDRO EDUARDO ZINI DAVOGLIO  argumenta que Jappe interdita com sucesso as receitas tradicionais de superação do capitalismo, mas critica as posições do autor sobre a luta de classes, o colapso do capitalismo e a autonomia da teoria.

Por outro lado, JOELTON NASCIMENTO, em Sobre a crítica do capitalismo em decomposição, argumenta que a recepção da teoria anticapitalista avançada por Jappe entre teóricos que operam com categorias tradicionais  é marcada pelo “choque” ou “trauma”. O choque resulta do fato de que a crítica de Jappe solapa os alicerces categoriais das teorias tradicionais, e desvela o seu limite para compreender a dinâmica social do capitalismo em crise.

Na sequência temos o ensaio O ovo da serpente nacional, de ALEXANDRE VASILENSKAS, que busca interpretar o crescimento da extrema direita no país, determinando suas causas históricas e tendências imanentes. O autor destaca a ascensão do irracionalismo social, e aponta como decisivo para esse processo a capitulação política do Partido dos Trabalhadores.

Em mais uma resenha, DANIEL CUNHA analisa o recém lançado livro de Chris Carlsson, Nowtopia. Em Uma “classe média” bifronte? ele procura demonstrar que há uma lacuna entre o que o livro pretende ser – uma análise da “recomposição de classe” da “aristocracia operária” do capitalismo avançado – e aquilo no que algumas limitações teóricas fazem com que ele recaia: uma ideologia de “classe média”.

Temos então dois textos que emergem da reflexão sobre as lutas sociais recentes no país. Em Os vândalos ao poder”, ALEX MARTINS MORAES interpreta o movimento ao longo de 2012 e 2013 em Porto Alegre. Para isso, o autor utiliza os conceitos de Jetztzeit (tempo-agora) de Benjamin e de “violação do direito” de Lukács.

Em seguida, o CÍRCULO DE ESTUDOS DA IDEIA E DA IDEOLOGIA faz a pergunta: Um partido é uma parte do quê? Os autores argumentam que as recentes manifestações de massa tornaram visível a crise da forma-partido, e sustentam que ela abre espaço para que se pense um outro uso para essa forma.

A revista encerra com crítica literária. Em ‘The Turn of the Screw’: o duplo como fantasmagoria social, CLÁUDIO R. DUARTE discute a famosa novela de James através da análise da configuração historicamente específica  do duplo. O artigo mostra que a dupla de fantasmas que aparecem é a revelação de uma verdade inconsciente de classe, ligada à forma de um opressivo contrato entre capital e trabalho.

Finalmente, Sartre em busca de Flaubert é a tradução de um texto de FREDRIC JAMESON, do início dos anos 1980, que visava a apresentar ao público estadunidense O idiota da família, grande obra de Jean-Paul Sartre, cujo primeiro volume em português acaba de sair no Brasil, pela LP&M.

Esperamos que a revista propicie material para reflexão crítica, e lembramos que estamos abertos a contribuições e comentários. Até a próxima edição!

Os editores

Março de 2014

[-] Sumário #10

Editorial [ Baixar ]

Entrevista

Marx, dialética, capital Baixar ]
com Lucio Colletti, por Perry Anderson

Artigos

Da metafísica do capital Baixar ]
Revisitando Lucio Colletti
Nuno Miguel Cardoso Machado

Dois rostos ou um vaso Baixar ]
A paralaxe marxista como um problema em Žižek
Joelton Nascimento

Escravos e servos do capital Baixar ]
Uma análise sócio-histórica de duas formações periféricas
Rodrigo Campos Castro

Nos 50 anos de One-dimensional man Baixar ]
Marcuse e o espectro da recusa intempestiva
Cláudio R. Duarte

Déficit sociológico ou negação determinada? Baixar ]
Diferença entre as Teorias Críticas de ontem e hoje
Raphael F. Alvarenga

Em busca do sujeito perdido Baixar ]
A superação do trabalho no novo livro de John Holloway
Daniel Cunha

As sutilezas metafísicas da luta de classes Baixar ]
Sobre as premissas tácitas de um estranho discurso nostálgico
Norbert Trenkle

Crise do capitalismo e “mundo do trabalho” em David Harvey Baixar ]
Notas críticas à “restauração do poder de classe”
Maurílio Lima Botelho

A forma e o fim Baixar ]
Comentários sobre um livro de Anselm Jappe
Pedro Eduardo Zini Davoglio

Sobre a crítica do capitalismo em decomposição Baixar ]
Joelton Nascimento

O ovo da serpente nacional Baixar ]
Alexandre Vasilenskas

Uma “classe média” bifronte? Baixar ]
Sobre as “utopias do agora” de Chris Carlsson
Daniel Cunha

“Os vândalos ao poder” Baixar ]
Violência política e poder popular nos protestos de 2012/2013 em Porto Alegre. Reflexões estratégicas à luz de Benjamin e Lukács.
Alex Martins Moraes

Um partido é uma parte do quê? Baixar ]
Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia

The Turn of the Screw Baixar ]
O duplo como fantasmagoria social
Cláudio R. Duarte

Sartre em busca de Flaubert Baixar ]
Fredric Jameson

Sinal de Menos #Especial

sinaldemenos_especial

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Caros leitores,

Esta edição extra de Sinal de Menos se dedica a pensar as recentes Jornadas de Junho. A composição da capa em forma de mosaico, elaborada por Felipe Drago, sinaliza os sentidos das Jornadas. Realmente elas surpreenderam a todos. O que parecia estagnado de repente se desencantou e se descongelou numa série de mobilizações e contramobilizações, que convidam à reflexão e ao desvendamento crítico.

Muito já se falou e se escreveu sobre as Jornadas, embora às vezes sem muito recuo histórico (inevitável, é verdade) e analítico-conceitual. Aqui, então, como sempre num esforço de esclarecimento social, o que importa é o empenho em distinguir o que une um determinado campo de lutas contraposto ao capital, ao poder excepcional cada vez mais em vigor e à grande mídia. Mas não só o que une, também o que separa e obriga à crítica das aparências e das ideologias da adesão, do agito e do movimento, que apenas terminam levando ao espontaneísmo e ao populismo.

Por outro lado, a essência subjaz à aparência e frequentemente esta última é mais rica do que a essência. Eis o que valoriza o registro fenomenológico do movimento em curso, com seus sentidos ambivalentes e contraditórios. Quanto mais rico e plural esse registro mais ele permitirá embasar uma crítica totalizante. Sem essa multiplicação de perspectivas, digamos, transversal – das grandes estruturas ao puro caos das ruas –, nada pode ser analisado mais a fundo. Os textos coletados na edição tentaram contemplar essa dialética entre aparência e essência e os múltiplos sentidos da revolta. Por isso ainda, reunimos tomadas de posição a partir de centros geográficos variados: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Cuiabá.

A revista abre com uma entrevista – Os sentidos da revolta – que os editores da Sinal de Menos deram a Roger Behrens, e que foi publicada parcialmente nos círculos alemães e dinamarqueses de crítica do valor e do capital (Jungle World e Autonom Infoservice, com previsão de publicação em outros meios alemães).

O primeiro artigo publicado a seguir fornece uma caracterização do Passe Livre e do Bloco de Luta pelo Transporte Público em Porto Alegre, que acreditamos ter sido uma das melhores concretizações dos protestos de Junho. Em Resistência e o direito à cidade, DANIEL CUNHA explica o contexto no qual o movimento se desenvolveu em Porto Alegre, mostrando que ele se imbrica em um mosaico mais amplo de lutas urbanas pelo direito à cidade que questiona o modelo urbanístico e o consenso político estabelecidos.

Em seguida, vem o texto de JOELTON NASCIMENTO, O colapso do arranjo brasileiro, sobre o (des)arranjo brasileiro entre empresariado e Estado, que segundo ele, é o ponto arquimediano que une todas as múltiplas reivindicações feitas durante as jornadas, apontando ainda o paradigma de movimento social resultante do conflito.

O terceiro artigo, de CLÁUDIO R. DUARTE – O Gigante que acordou – ou o que resta da Ditadura? – busca apresentar as tensões entre o tal Gigante e o que ele provavelmente representa em termos sociais e subjetivos. O paradoxo é que se a crise da representação se instalou em Junho o que em grande parte desfilou nas ruas, para além do MPL, foi uma mera representação espetacular, um simulacro com potenciais perigosos, no limite protofascistas, e que nos levam apenas ao que resta da ditadura, a começar pela repressão militar, a mídia golpista e a onda reacionária.

O quarto artigo – A revolta e seu duplo –, de PAULO MARQUES, vai um pouco no mesmo sentido do artigo anterior, captando ricos detalhes e nuances das mobilizações. Ele busca destrinchar e identificar suas causas dentro do processo de crise capitalista e da onda de lutas sociais internacional. Procura também entendê-las como lutas sobre o valor da força de trabalho e analisa o seu duplo caráter: por um lado ligado às demandas concretas, por outro, a sua recuperação capitalista em forma de pseudorrevoltas espetaculares e conservadoras. Por fim aponta os desafios para o futuro.

Em seguida, temos dois textos que caminham pelo fio da experiência empírica das manifestações. Em Duas visões do movimento – PSOL e Frente Autônoma, SUELEM FREITAS relata duas maneiras de organizar a luta em Porto Alegre: a primeira através do partido de esquerda mais ou menos tradicional, a outra por meio de uma experiência autonomista.

Já em A comédia da moral pacífica, ANDRÉ GUERRA reflete, de maneira quase narrativa e num viés mais ou menos deleuziano, a respeito do caos e da violência que tomaram as ruas em certos momentos mais explosivos das manifestações, pensandosuas implicações para a moral normatizada do homem burguês cotidiano.

Na sequência temos um texto numa linha marxista-leninista tradicional, com DIEGO GROSSI, em seu Decifra-me ou devoro-te: as jornadas de junho/julho e a luta de classes no Brasil contemporâneo, tecendo boas considerações sobre o ciberativismo, apontando como o espontaneísmo das massas surpreendeu os agentes históricos tradicionais da esquerda. O que demonstra a necessidade desses agentes inovarem não só suas políticas, mas também os métodos de ação para que se coloquem à altura dos desafios da luta de classes no século XXI, sem, no entanto, abdicarem das ricas contribuições herdadas do passado.

Para fechar, em A mobilidade do inferno proletário: a vida nos trens da hiperperiferia de São Paulo, CLÁUDIO R. DUARTE narra a vida do proletariado urbano usurpada pelo tempo de transporte nos trens suburbanos da Grande São Paulo. Ele apresenta um pouco do mal-estar social geral que veio a furo com as Jornadas de Junho.

Boa leitura e até a próxima edição.

Agosto de 2013

[-] Sumário #Especial

Editorial [ Baixar ]

Entrevista

Os sentidos da revolta [ Baixar ]
com Sinal de Menos, por Roger Behrens

Artigos

Resistência e direito à cidade [ Baixar ]
Esboço de uma gênese do movimento em Porto Alegre
Daniel Cunha

O colapso do arranjo brasileiro [ Baixar ]
Joelton Nascimento

O gigante que acordou – ou o que resta da ditadura? [ Baixar ]
Protofascismo, a doença senil do conservadorismo
Cláudio R. Duarte

A revolta e seu duplo [ Baixar ]
Entre a revolta e o espetáculo
Paulo Marques

Visões do movimento – PSOL e Frente Autônoma [ Baixar ]
Impressões de Porto Alegre
Suelem Freitas

A comédia da moral pacífica [ Baixar ]
André Guerra

Decifra-me ou devoro-te [ Baixar ]
As jornadas de junho/julho e a luta de classes no Brasil contemporâneo
Diego Grossi

A mobilidade do inferno proletário [ Baixar ]
A vida nos trens da hiperperiferia de São Paulo
Cláudio R. Duarte

 

Sinal de Menos #9

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Caros leitores,

Chegamos à nona edição de nossa revista, de longe a mais volumosa que já lançamos. Infelizmente, porém, começamos com a nota triste do falecimento de Robert Kurz, em julho de 2012. A sua importância para nossos editores e colaboradores pode ser constatada pelas inúmeras referências e citações contidas tanto nesta edição quanto nas anteriores, isto quando a obra de Kurz não é o próprio tema discutido. Para nós, a sua obra retoma com força a crítica da economia política de Marx, centrando-a na crise do valor/cisão de gêneros e na possibilidade da desnaturalização das formas sociais. E isso, que não é pouco, exatamente quando vivemos uma crise do pensamento crítico, atacado pela superficialidade sociológica e culturalista – uma crise que é também, contudo, uma espécie de crise do campo das forças em luta. A nota positiva da edição é a expressiva colaboração de Marcos Barreira, com dois textos e duas traduções publicados, além dos textos enviados por companheiros e novos colaboradores (Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, Natasha B. Palmeira, Nuno Machado, Eraldo Santos e Marcelo Mari).

Esta edição da revista vem com a marca do seu tempo, como mostra a capa de Felipe Drago, utilizando fotografia de Y. Karahalis: a crise do capital e seus desdobramentos – econômicos, teóricos, urbanísticos, ideológicos, ecológicos e estéticos. Abrimos a revista com uma entrevista com Ernst Lohoff e Norbert Trenkle, do Grupo Krisis, publicada na revista alemã Telepolis. A entrevista foca a crise do capitalismo e sua perspectiva histórica. Para isto, os autores buscam os fundamentos marxianos da crítica da economia política e da teoria da crise.

“Entre ruína e desespero”, de Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga, aborda o tratamento dado ao conceito de sujeito em Slavoj Žižek e em Robert Kurz. Sem visar a uma síntese entre as duas posições, radicalmente opostas, os autores procuram jogar um contra o outro a fim de revelar as unilateralidades e os passos em falso no campo da constituição da luta para uma negação concreta da sociedade das mercadorias.

Os dois textos seguintes, de Marcos Barreira“O Exército nas ruas” (este em co-autoria com Maurílio Lima Botelho) e “Cidade Olímpica” – buscam conceituar a violência urbana na cidade do Rio de Janeiro no quadro de nossa modernização retardatária e do movimento do capitalismo global. Episódios como a repressão à greve da CSN fornecem chaves para a compreensão das atuais “Unidades de Polícia Pacificadora” no contexto da preparação da cidade para as Olimpíadas.

A seguir, Daniel Cunha, em “A todo vapor rumo à catástrofe?”, mostra que as emissões de carbono aumentaram significativamente nos últimos anos, intensificando as chances de um aquecimento global catastrófico. O autor analisa as causas do fenômeno com base na dinâmica do capitalismo, desde a Revolução Industrial. Na sequência, em “As sutilezas metafísicas do negacionismo climático”, faz a crítica de uma tese de doutorado da USP que busca negar a teoria do aquecimento global a partir de uma posição esquerdista.

“O Dinheiro do Espírito e o Deus das Mercadorias”, de Nuno Machado, enfoca o tema da abstração real em Alfred Sohn-Rethel. O autor revisa os conceitos do pensador e os confronta com as posições da crítica do valor, especialmente dos grupos Krisis e Exit! e de Moishe Postone.

Em “Lukács – a Ontologia da miséria e a miséria da Ontologia”, Cláudio R. Duarte apresenta uma crítica imanente à Ontologia do ser social do último Lukács, recém publicada no Brasil, mostrando que a sua pedra angular é nada mais – e nada menos – do que a miséria do valor e do trabalho, como bases da esfera separada da economia moderna, o fundamento “ontológico” em ruína avançada no capitalismo especulativo global.

Em seguida, uma participação especialíssima: o texto pouco conhecido, redigido em 1962 por Guy Debord, Attila Kotànyi e Raoul Vaneigem, das “Teses sobre a Comuna de Paris”, aqui em tradução de Raphael F. Alvarenga. Elas vêm a calhar num momento em que aquele episódio determinante do movimento operário clássico não figura mais nos currículos de História na França – o que nos faz pensar que se a situação de conflito social sistêmico engrossar, coisas reacionárias desse tipo podem ocorrer nessa e noutras partes.

Na sequência e até o final da revista, temos um feixe de textos em torno da arte moderna e contemporânea. Primeiramente, vão publicados dois textos de Anselm Jappe traduzidos por Marcos Barreira. Em “Crítica social ou niilismo?”, Jappe percorre a história do pensamento radical e da negação e inverte a acusação habitual, argumentando que niilista, na verdade, é a sociedade moderna. Em “Terão os situacionistas sido a última vanguarda?”, o autor coloca em perspectiva a ascensão e declínio das vanguardas artísticas, a fim de determiná-las historicamente.

“Extratos de Pollock, ou, pintura e trabalho abstrato”, de Cláudio R. Duarte, trata da mediação do trabalho abstrato contida na action painting de Jackson Pollock, como o seu ponto cego central. O pintor tanto sofre como expõe o trabalho abstrato como um ritual vazio absurdo. Ao mesmo tempo, faz ver o sentido da posição da negação, enquanto expressão e posição do sujeito, na dialética objetivada de sua forma.

Eraldo Santos, em seu texto “Tímida sim, mas um tantinho desrecalcada”, discute um texto do grande crítico Rodrigo Naves sobre o pintor Alberto da Veiga Guignard. Na esteira de Naves, suas análises buscam conceituar a forma da pintura de Guignard, que contém em si a dialética da inserção da sociedade brasileira no capitalismo global, e que apontava para um projeto diferente de modernidade artística.

O próximo ensaio – “Rodrigo Naves e as dificuldades da formação”, de Cláudio R. Duarte, retoma e amplia um pouco mais essa mesma problemática bem apresentada por Eraldo. Ele enfoca a potência crítica de Rodrigo Naves e de seu mapeamento do estado atual das artes plásticas no país e no mundo totalmente mercantilizado. Num segundo tempo, busca criar, por meio das categorias de Naves, os termos de uma comparação entre Guignard e Machado de Assis, tomando-os como duas respostas críticas ao Brasil e a esse mundo que então ainda se formava. O termo mediador da comparação é a imposição de uma modernização conservadora, que se dificulta o nosso regime de forma não impede de o país “se formar” negativamente por meio da forma-mercadoria, dificultando ou impossibilitando ilusões de meras reformas de superfície.

Comentário crítico de uma adaptação regressiva de uma peça de Bertolt Brecht, o texto seguinte, “Adesão e desbunde”, de Raphael F. Alvarenga e Natasha B. Palmeira, discute a banalização e os abusos das teorias do dramaturgo alemão em montagens atuais, nas quais a falta de dialética, a incapacidade de historicizar e a preocupação em oferecer ao espectador vivências extraordinárias obnubilam o fato que em obras de arte dignas do nome os meios formais não são mero fruto do acaso.

Marcelo Mari, em “Ideologia, comunicação e visualidade – o sistema artístico detectado”, trata da história da crítica de arte moderna e pós-moderna, a partir dos desdobramentos inscritos na mudança de concepção e de organização das instituições artísticas (museus, bienais, mostras etc.) no Brasil e no mundo. O texto aponta que o fim da arte é apenas o início de sua mercantilização e institucionalização integrais.

“Os devotos do Santo Anônimo” é uma resenha do romance de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, intitulado as visitas que hoje estamos, lançado em 2012. O romance tem uma densidade literária singular, pois consegue, numa espécie de tour de force, unificar em vários registros as duas formas sociais do fetichismo (o religioso e o monetário-capitalista) do mundo “caipira” brasileiro, hoje em estado de petição de miséria, por isso mesmo, petição de uma vida além da miséria.

A revista termina com a publicação de três fragmentos selecionados desse romance de Antonio Geraldo: “a hora certa”, “a lição” e “com espírito”. Agradecemos muito a sua colaboração para a resenha e a publicação destes textos.

A revista continua aberta às contribuições – principalmente quando alimentam as dissonâncias, geradoras dos autênticos debates. Assim o esperamos. Até o próximo número!

 

Janeiro de 2013

[-] Sumário #9

Editorial Baixar ]

Entrevista

Crise mundial e limites do capitalBaixar ]
com Ernst Lohoff e Norbert Trenkle

Artigos

Entre ruína e desesperoBaixar ]
Negação e constituição do sujeito em Robert Kurz e Slavoj Zizek
Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga

O Exército nas ruasBaixar ]
Da operação Rio à ocupação do Complexo do Alemão.
Notas para a uma reconstituição da exceção urbana

Marcos Barreira e Maurílio Lima Botelho

Cidade OlímpicaBaixar ]
Sobre o nexo entre reestruturação urbana e violência na cidade do Rio de Janeiro
Marcos Barreira

A todo vapor rumo à catástrofe?Baixar ]
O capital e a dinâmica do aquecimento global
Daniel Cunha

As sutilezas metafísicas do negacionismo climático [ Baixar ]
Como a esquerda tradicional adere à ideologia negacionista
Daniel Cunha

LukácsBaixar ]
A Ontologia da miséria e a miséria da Ontologia
Cláudio R. Duarte

O dinheiro do espírito e o deus das mercadoriasBaixar ]
A abstracção real segundo Sohn-Rethel
Nuno Miguel Cardoso Machado

Teses sobre a Comuna de ParisBaixar ]
Guy Debord, Attila Kotànyi e Raoul Vaneigem

Crítica social ou niilismo?Baixar ]
O “trabalho do negativo”: de Hegel e Leopardi até o presente
Anselm Jappe

Terão os situacionistas sido a última vanguarda?Baixar ]
Anselm Jappe

Extratos de PollockBaixar ]
ou, Pintura e trabalho abstrato
Cláudio R. Duarte

Tímida sim, mas um tantinho desrecalcadaBaixar ]
Ainda um exercício em torno da matéria de Naves e Guignard
Eraldo Santos

Rodrigo Naves e as dificuldades da formaçãoBaixar ]
Naves, Guignard e a crítica das formas modernas
Cláudio R. Duarte

Adesão e desbundeBaixar ]
Os êxtases sórdidos de um Brecht às avessas
Raphael F. Alvarenga e Natasha B. Palmeira

Ideologia, comunicação e visualidadeBaixar ]
O sistema artístico detectado
Marcelo Mari

Os devotos do Santo AnônimoBaixar ]
Sobre “as visitas que hoje estamos”
Cláudio R. Duarte

Três Fragmentos [ Baixar ]
“a hora certa”, “a lição” e “com espírito”
Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira

(2a. ed. revisada)

Sinal de Menos #8

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Chegamos à oitava edição de nossa Sinal de Menos, que tem capa de Felipe Drago. Aqui temos, pela primeira vez, contribuições vindas de Portugal: a fotografia da capa, obra de Paulo Martins inspirada no editorial da Sinal de Menos #1, e duas traduções de Moishe Postone, de autoria de Nuno Machado. Postone é professor na Universidade de Chicago, um dos pioneiros da chamada “crítica do valor”, com pouquíssimo material traduzido para a língua portuguesa.

Abrimos a revista com a entrevista de Postone, originalmente concedida à revista inglesa Solidarity, onde se discute a relação da esquerda com o antissemitismo. Em seguida, Postone, em seu “Antissemitismo e nacional-socialismo” – um ensaio de referência mundial nos estudos sobre o tema, mas ainda inédito em português -, trata de buscar as chaves da relação imanente específica entre estes dois fenômenos e o fundamento social moderno da forma-mercadoria e do trabalho abstrato.

Os três textos seguintes têm como fio condutor comum o sentido da urgência da mudança histórica, representado pela referência ao Walter Benjamin das “Teses sobre o conceito de história”. O texto de Daniel Cunha, “O Antropoceno como alienação: crítica da economia política do aquecimento global”, conceitua a destrutividade do capitalismo a partir da lógica da mercadoria, e mostra como o metabolismo social falho com a natureza resulta na globalização da poluição. Procura demonstrar, ainda, como esta globalização da poluição escancara o fetichismo e a irracionalidade do sistema capitalista em diferentes aspectos da vida social, que se estendem dos modelos matemáticos da mudança climática às campanhas publicitárias que fazem referência à catástrofe ambiental, passando pelos processos tecnológicos.

Em “O capitalismo como estado de exceção permanente”, Cláudio R. Duarte propõe uma reflexão sobre o conceito de estado de exceção como a norma do capitalismo administrado contemporâneo. Para isso lança novas perspectivas sobre a ideia de “mundo totalmente administrado” dos frankfurtianos e busca, a partir de Marx, desdobrar dialeticamente a lógica do estado de exceção da própria lógica do Capital, enquanto produção “desmedida” e “sem limites” de mais-valia. Por fim, o autor experimenta tecer mediações entre o capitalismo como “perversão objetiva” e as variantes-tipo de sujeito moderno “fora da norma”, partindo do funcionamento perverso e/ou psicótico da Lei e do Supereu no mundo administrado, o qual inverte a Lei em uma injunção superegoica de gozo ilimitado, reduzindo os sujeitos a instrumentos de gozo do Outro; um traço fundamental que a literatura de Kafka, Machado de Assis e Alejo Carpentier permitiram ler ao longo do século XX.

Fechamos a seção de artigos com o texto de Raphael F. Alvarenga, “Severas alegrias da lógica: Brecht, didatismo e dialética”, que mostra como, a partir de peças didáticas, o dramaturgo alemão procurou dotar de determinação objetiva a potência negadora contida de forma indeterminada no niilismo das peças da juventude, reorganizando-a no interior de uma reflexão estética mais consequente, ligada à luta anticapitalista. A força e o interesse de sua obra derivam em grande medida dessa disposição a alterar estrategicamente, no plano da linguagem (poética e cênica), certas regras do jogo das forças sociais a fim de torná-lo mais dinâmico e produtivo, buscando continuamente na experiência artística aquilo que no mundo presente faz brecha, como que anunciando o advento de algo qualitativamente novo.

A revista fecha com a tradução de duas pequenas parábolas de Kafka: Nosso caminho Os segredos do poderoso. A totalidade se expressa enigmaticamente como o vazio e a confusão do presente – legíveis criticamente, talvez, caso levarmos em conta o que se deposita no fundo da forma de regulação social imposta pelo estado de exceção mundial.

Fevereiro de 2012

[-] Sumário #8

Editorial [ Baixar ]

Entrevista

Sionismo, antissemitismo e a esquerda [ Baixar ]
com Moishe Postone

Artigos

Antissemitismo e nacional-socialismo [ Baixar ]
Moishe Postone

O Antropoceno como alienação [ Baixar ]
Crítica da economia política do aquecimento global
Daniel Cunha

O capitalismo como estado de exceção permanente [ Baixar ]
Cláudio R. Duarte

Severas alegrias da lógica [ Baixar ]
Brecht, didatismo e dialética
Raphael F. Alvarenga

Traduções literárias

Nosso caminho e Os segredos do poderoso [ Baixar ]
Franz Kafka


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    1984-8730
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