Sinal de Menos #1

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Que o mundo atual apareça cada vez menos sob os trajes da positividade e do otimismo satisfeitos, parece haver poucas dúvidas. Tornou-se um fato banal a grande mídia relatar, em pânico aberto ou simulado, a explosão de crises sociais e ambientais de grande magnitude. O espectro da catástrofe ronda o planeta, abafado cotidianamente pela velha política de entretenimento de massas e administração das crises, em meio ao fracasso e ao terror social generalizados. Quanto mais o capitalismo se afirma vencedor, como a única alternativa de produção e vida, mais o desastre social e ambiental, a um certo prazo difícil de julgar, parece-nos inevitável.

Se o travo amargo do negativo se projeta sobre o todo, para nós não se trata de atenuá-lo, mas sim de aguçá-lo, com a maior contundência possível. Pois as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador. Uma revista que nasce sob o signo da recusa – da potência do não, em vistas à criação social do novo – necessariamente se esforça por determinar e especificar aquilo que pretende negar. Não se trata de forma alguma de niilismo, reação desparafusada, desespero existencial, irracionalismo – formas abstratas de recusa pela recusa ou voluntarismo cego, feitos de um ponto de vista meramente subjetivo, individual ou grupal. Inserimo-nos, assim, no esforço coletivo de elaboração de uma crítica consequente das mediações sociais que nos afetam e nos dominam, em seus vários níveis e escalas. Alinhamo-nos à tradição de pensar e organizar uma formação cultural crítica, que necessariamente passe pela autorreflexão individual, sem a qual, queremos crer, não há nenhuma práxis realmente emancipatória.

Trata-se de mirar e atacar as estruturas fundamentais da sociedade capitalista, bem como seus momentos constitutivos e reprodutivos em suas particularidades concretas. Sinal de Menos pretende, pois, dar voz à perspectiva mediadora entre os problemas gerais e particulares, movendo-se continuamente das questões econômico-sociais mais urgentes aos movimentos de oposição, dos processos de urbanização capitalista às formas políticas e estatais, da formação social e cultural às formas de sujeito e subjetivação, das elaborações teóricas num plano mais geral à literatura e às artes. Se é correto afirmar que vemos o mundo sempre de um certo ponto de vista – no caso, da periferia do capitalismo, como seres sujeitos à loucura da valorização do capital –, talvez tenhamos, por assim dizer, ao menos alguma “vantagem” nesse ponto: pois não será aqui o lugar onde a crise mundial se manifesta em toda sua força, como revelação cabal e mesmo adiantada da fratura exposta da socialização capitalista global?

Nessa linha há bons antecedentes. No Brasil, pode-se dizer que a grande descoberta do país iniciou-se menos com as ciências sociais que com a literatura: depois de uma lenta acumulação literária, Machado de Assis despontou, em plataforma periférica, como um grande farol, ainda hoje fazendo-nos ver as faces tenebrosas de uma sociedade em que as heranças coloniais da dominação direta – escravismo, patriarcalismo, clientelismo – se entrelaçam às estruturas de dominação capitalista mais modernas. Aqui, as regulações coisificadas do capital se combinam ao mandonismo e ao capricho de uma elite cínico- esclarecida, fermentando uma cultura envenenada, de afirmação e sobrevivência selvagens, que hoje trespassa todos os estratos sociais, reproduzindo uma sociedade estilhaçada e só muito precariamente unificada – nem por isso menos moderna e capitalista, muito pelo contrário. Nosso complexo particular de problemas dá sinais ao mundo, na crise em que há muito estamos, de que o automatismo cego e destrutivo do sistema tende a ser suportado – não sem contradições – por formas subjetivas distintas do sujeito burguês europeu clássico, que hoje vão se generalizando pelo mundo todo. A grande literatura, nesse caso, longe de ser mera ideologia, detinha chaves de alguns de nossos enigmas sociais contemporâneos.

A Revista aposta então suas fichas no pensamento de que a totalidade deve se realizar dialeticamente em cada problema particular enfocado, sem privilégio de algum campo de análise. Da mesma maneira, se hoje vem se falando em “brasilianização do mundo”, em geral de forma apologética, provavelmente estaremos num posto relevante para a observação crítica, adrede preparado por nossa tradição. Nesse sentido da formação, a revista segue sua linha, traçando com rigor e também certo jogo e desvio para com as regras oficiais do mundo universitário, degradado pelo mercado e pela cultura do favor, a figura composta pelos enigmas sociais. Um outro mestre em tais enigmas, Drummond, em seu “não-estar-estando” na vida danificada, concluía assim seu “Poema-orelha”:

“e a poesia mais rica, é um sinal de menos.”

**

Nosso primeiro número abre com uma ENTREVISTA de John Holloway, na ocasião de sua vinda para o Brasil em novembro de 2007, convidado pelo grupo Fim da Linha. Aqui, ele comenta vários problemas atuais e retoma várias reflexões e conceitos elaborados durante uma trajetória de quatro décadas de crítica social.

Em seguida, na seção de ARTIGOS, temos o texto de Raphael F. Alvarenga sobre Jean Genet, escritor francês fora-de-esquadro e ainda muito pouco lido no Brasil. O ensaio desenvolve algumas linhas de seu pensamento moral, político e estético, num percurso que conecta os temas da marginalidade, da crítica e da (trans)formação.

O segundo texto, de Joelton Nascimento, desdobra as relações entre forma-jurídica e forma-mercadoria, através do debate clássico desde Marx, Rubin, Pasukanis até quase sua completa naturalização na consciência dos “bombeiros” da democracia liberal, exatamente no momento em que o Capital, incendiado, torna-se cada vez mais sem substância de valor e busca-se garantir por estruturas jurídicas de regulação.

O terceiro artigo, de Daniel Cunha, trata da questão da luta de classes na teoria dos grupos alemães Krisis e Exit, tentando dissolver, através de uma análise imanente, a cristalização teórica que impede uma apreensão crítica de conceitos originalmente negativos como os de proletariado, classe e luta de classes, e que tende a um auto- ofuscamento de suas próprias pressuposições e consequências práticas. Daí o diálogo de seu título com os Últimos combates de Robert Kurz.

Em seguida, Cláudio R. Duarte reconstrói a passagem do realismo ao modernismo na literatura, como um bom sismógrafo crítico das estruturas sociais e psíquicas impostas no processo de modernização, num caminho que suspende os temas da alienação, morte e espaço abstrato do plano do conteúdo ao da forma de exposição no modernismo.

Fechando a seção, Paulo V. Marques Dias lida com a questão da educação escolar como forma de reprodução do trabalhador abstrato e das condições gerais do capital em larga escala, a partir do ponta-pé do que o autor chama “surto avaliatório” e de uma análise lógica e histórica de seus pressupostos.

A terceira seção abre para TRADUÇÕES: uma de Franz Schandl, um dos principais colaboradores das revistas alemãs Streifzüge e Krisis, num excelente texto sobre a relação entre economia, criminalidade e pilhagem como “nova normalidade” do capitalismo em colapso. Em seguida, um pequeno Texto para nada (# 4) e uma micro-peça (Respiração) de Samuel Beckett, traduzidos e comentados pelos tradutores.

A quarta seção, dedicada a RESENHAS, abre para uma reflexão sobre uma coletânea recente dos escritos do arquiteto Sérgio Ferro, em seguida para a de um vídeo- documentário de 2004 sobre o filósofo Slavoj Žižek e outra sobre o filme Crash.

Abril de 2009.

[-] Sumário #1

Editorial 

Entrevista com John Holloway

Artigos

Sobre fundo de noite
Notas sobre Jean Genet
Raphael F. Alvarenga

O valor como fictio juris 
Forma jurídica e forma valor
Joelton Nascimento 

Penúltimos combates
A luta de classes como desejo reprimido no Krisis/Exit
Daniel Cunha

Mau tempo para a poesia
Espaço, morte e alienação na literatura moderna
Cláudio R. Duarte

Educação e a fábrica social
Paulo V. Marques Dias

Traduções

Pilhagem social
Mosaico de uma desintegração feito com pedras desordenadas
Franz Schandl

Textos para nada #4 (Textes pour rien #4) e Respiração (Breath)
Samuel Beckett

Beckett, “cada vez menos sim”
Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga

Leituras e comentários

No rastro de Sérgio Ferro
Felipe Drago

Zizek e a paixão do impossível, ou Elvis com Lacan
Cláudio R. Duarte

CRASH!
Daniel Cunha

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2 Comentários

  1. preferia o formato que permitia baixar os artigos individualmente.

    • Caro Thiago,

      Tivemos que migrar do sistema anterior, pois estava apresentando problemas. Além disso, era extremamente burocrático e nos consumia um tempo imenso para subir os arquivos. De qualquer forma, tão pronto lancemos a próxima revista é possível que façamos arquivos com os textos individuais.

      Daniel Cunha


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