Sinal de Menos #10

sinaldemenos10

Baixar a revista inteira

Caros leitores,

Chegamos à nossa revista no 10, ou décimo primeiro volume se considerarmos a edição especial sobre os Protestos de Junho. Não podemos deixar de constatar que há um acúmulo em nossas análises, que se expressa também na qualidade das contribuições externas. Disso resulta um conjunto de textos que configura um mosaico espelhado de reflexos e contradições, sob o fio comum da crítica categorial marxiana. É isso que retrata a capa de Felipe Drago.

A revista está imersa no espírito do tempo, que é um espírito de crise. Nessa penumbra social, nos esforçamos para encontrar o fio da crítica emancipatória. Esta edição se caracteriza pelo peso destacado da crítica categorial do capitalismo, com vários artigos que se debruçam sobre autores marxianos, buscando suas potencialidades e inconsistências. Percebe-se também um esforço conceitual em relação ao antagonismo social, suas formas e tendências imanentes. Também está presente a já tradicional crítica literária materialista.

A revista começa com uma entrevista que LUCIO COLLETTI concedeu a Perry Anderson em 1974, inédita em nossa língua. Colletti foi um dos precursores da teoria crítica do valor, e é pouco conhecido no Brasil. Na sequência, NUNO MACHADO, em seu texto Da metafísica do capital traça um panorama histórico-conceitual da obra de Colletti. Destaca-se a análise do capitalismo como “metafísica real”, a partir do confronto de Marx, Hegel e Kant.

Em seguida, em Dois rostos ou um vaso JOELTON NASCIMENTO retoma um problema proposto pelo filósofo e crítico cultural esloveno Slavoj Žižek em torno da teoria crítica do capitalismo. O artigo defende a tese de que o problema da paralaxe entre a crítica da economia política e a analítica dos antagonismos sociais permanece aberto e situa a Nova Crítica do Valor no interior desta problemática. No ensejo, faz uma crítica do encaminhamento žižekiano à questão.

Na sequência, em Escravos e servos do capital, RODRIGO CAMPOS CASTRO mostra que o capital fez nascer não apenas o trabalho da mão de obra livre, mas recuperou redefinindo-as formas arcaicas de trabalho nas suas periferias da escravidão e da servidão redivivas. Nessas, o trabalho de atividade supostamente emancipadora tornou-se ou uma praga infernal ou um chamado divino. Confrontando uma configuração com outra, o texto busca esclarecer os motivos e as consequências de longo prazo para esse circo de paradoxos.

O primeiro crítico resenhado nesta edição é Herbert Marcuse, aqui em comemoração ao meio século de publicação de One-Dimensional Man (1964), um livro traduzido no Brasil como A ideologia da sociedade industrial. CLÁUDIO R. DUARTE apresenta a sua contribuição como um convite à releitura do filósofo frankfurtiano, em Nos 50 anos de ‘One-Dimensional Man’: Marcuse e a recusa intempestiva. Segundo o autor, o livro anuncia vários temas de uma crítica radical da sociedade do trabalho e do estado de exceção permanente, da racionalidade tecnológica do capital e da ideologia característica que cimenta o todo. Ao contrário do que se afirma, a  sociedade unidimensional para Marcuse não elimina as contradições e irracionalidades do sistema, que, por isso mesmo, incitam à Grande Recusa inaudita.

Seguindo com os frankfurtianos, em Déficit sociológico ou negação determinada?, RAPHAEL F. ALVARENGA contesta a versão consagrada de que a perspectiva normativa da Nova Teoria Crítica (mais precisamente na figura de Axel Honneth) teria desbancado a démarche crítico-dialética da primeira Escola de Frankfurt (T. W. Adorno e cia.).

DANIEL CUNHA, na sequência, resenha o novo livro de John Holloway, Fissurar o capitalismo. O autor procura mostrar os eixos de sua  teoria, seus pontos fortes e limitações. Como diz o título, Em busca do sujeito perdido, o livro é apresentado como uma tentativa de reinterpretação de um conceito central na obra marxiana – o duplo caráter do trabalho – para redefinir o sujeito. O confronto com outros autores da crítica do valor problematiza questões teóricas importantes.

Apresentamos a seguir a tradução de um texto de NORBERT TRENKLE (Krisis), As sutilezas metafísicas da luta de classes. O autor procura demonstrar, a partir da análise da teoria lukacsiana da reificação e do proletariado, que existem pressupostos metafísicos implícitos na teorização da luta de classes, que se prolonga em autores como Holloway e Negri/Hardt.

Em seguida, a obra de David Harvey é analisada por MAURÍLIO LIMA BOTELHO, em seu Crise do capitalismo e “mundo do trabalho” em David Harvey. O autor critica os momentos subjetivistas da teoria de Harvey, em especial a sua noção do neoliberalismo como um projeto de “restauração do poder de classe”.

Seguem duas resenhas de livros de Anselm Jappe a partir de pontos de vista diversos. Em A forma e o fim, PEDRO EDUARDO ZINI DAVOGLIO  argumenta que Jappe interdita com sucesso as receitas tradicionais de superação do capitalismo, mas critica as posições do autor sobre a luta de classes, o colapso do capitalismo e a autonomia da teoria.

Por outro lado, JOELTON NASCIMENTO, em Sobre a crítica do capitalismo em decomposição, argumenta que a recepção da teoria anticapitalista avançada por Jappe entre teóricos que operam com categorias tradicionais  é marcada pelo “choque” ou “trauma”. O choque resulta do fato de que a crítica de Jappe solapa os alicerces categoriais das teorias tradicionais, e desvela o seu limite para compreender a dinâmica social do capitalismo em crise.

Na sequência temos o ensaio O ovo da serpente nacional, de ALEXANDRE VASILENSKAS, que busca interpretar o crescimento da extrema direita no país, determinando suas causas históricas e tendências imanentes. O autor destaca a ascensão do irracionalismo social, e aponta como decisivo para esse processo a capitulação política do Partido dos Trabalhadores.

Em mais uma resenha, DANIEL CUNHA analisa o recém lançado livro de Chris Carlsson, Nowtopia. Em Uma “classe média” bifronte? ele procura demonstrar que há uma lacuna entre o que o livro pretende ser – uma análise da “recomposição de classe” da “aristocracia operária” do capitalismo avançado – e aquilo no que algumas limitações teóricas fazem com que ele recaia: uma ideologia de “classe média”.

Temos então dois textos que emergem da reflexão sobre as lutas sociais recentes no país. Em Os vândalos ao poder”, ALEX MARTINS MORAES interpreta o movimento ao longo de 2012 e 2013 em Porto Alegre. Para isso, o autor utiliza os conceitos de Jetztzeit (tempo-agora) de Benjamin e de “violação do direito” de Lukács.

Em seguida, o CÍRCULO DE ESTUDOS DA IDEIA E DA IDEOLOGIA faz a pergunta: Um partido é uma parte do quê? Os autores argumentam que as recentes manifestações de massa tornaram visível a crise da forma-partido, e sustentam que ela abre espaço para que se pense um outro uso para essa forma.

A revista encerra com crítica literária. Em ‘The Turn of the Screw’: o duplo como fantasmagoria social, CLÁUDIO R. DUARTE discute a famosa novela de James através da análise da configuração historicamente específica  do duplo. O artigo mostra que a dupla de fantasmas que aparecem é a revelação de uma verdade inconsciente de classe, ligada à forma de um opressivo contrato entre capital e trabalho.

Finalmente, Sartre em busca de Flaubert é a tradução de um texto de FREDRIC JAMESON, do início dos anos 1980, que visava a apresentar ao público estadunidense O idiota da família, grande obra de Jean-Paul Sartre, cujo primeiro volume em português acaba de sair no Brasil, pela LP&M.

Esperamos que a revista propicie material para reflexão crítica, e lembramos que estamos abertos a contribuições e comentários. Até a próxima edição!

Os editores

Março de 2014

[-] Sumário #10

Editorial

Entrevista

Marx, dialética, capital
com Lucio Colletti, por Perry Anderson

Artigos

Da metafísica do capital
Revisitando Lucio Colletti
Nuno Miguel Cardoso Machado

Dois rostos ou um vaso
A paralaxe marxista como um problema em Žižek
Joelton Nascimento

Escravos e servos do capital
Uma análise sócio-histórica de duas formações periféricas
Rodrigo Campos Castro

Nos 50 anos de One-dimensional man
Marcuse e o espectro da recusa intempestiva
Cláudio R. Duarte

Déficit sociológico ou negação determinada?
Diferença entre as Teorias Críticas de ontem e hoje
Raphael F. Alvarenga

Em busca do sujeito perdido
A superação do trabalho no novo livro de John Holloway
Daniel Cunha

As sutilezas metafísicas da luta de classes
Sobre as premissas tácitas de um estranho discurso nostálgico
Norbert Trenkle

Crise do capitalismo e “mundo do trabalho” em David Harvey
Notas críticas à “restauração do poder de classe”
Maurílio Lima Botelho

A forma e o fim
Comentários sobre um livro de Anselm Jappe
Pedro Eduardo Zini Davoglio

Sobre a crítica do capitalismo em decomposição
Joelton Nascimento

O ovo da serpente nacional
Alexandre Vasilenskas

Uma “classe média” bifronte?
Sobre as “utopias do agora” de Chris Carlsson
Daniel Cunha

“Os vândalos ao poder”
Violência política e poder popular nos protestos de 2012/2013 em Porto Alegre. Reflexões estratégicas à luz de Benjamin e Lukács.
Alex Martins Moraes

Um partido é uma parte do quê?
Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia

The Turn of the Screw
O duplo como fantasmagoria social
Cláudio R. Duarte

Sartre em busca de Flaubert
Fredric Jameson

Anúncios

3 Comentários

  1. El medio ambiente es un tema de mucha ipnrotamcia para nuestra generacif3n y las futuras, es de care1cter de supervivencia donde todos debemos aportar nuestro grano de arena, desde nuestra casa, oficina y el colegio.

  2. Olá, tenho uma dúvida sobre a Sinal de Menos: vocês não recebem artigos escritos por mulheres ou o projeto editorial de vocês é machista mesmo?

    • Olá. Recebemos sim artigos escritos por mulheres, é claro. Inclusive dois que foram publicados, de íris Nery do Carmo, tratam da relação estrutural entre capitalismo e patriarcado.


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • ISSN

    1984-8730
  • Insira o seu email e clique para receber notificações de novos artigos por email.

    Junte-se a 133 outros seguidores

  • Comunidades e grupos

  • Contato

    dcunha77@hotmail.com