Sinal de Menos #11, vol. 1

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“Nunca se viu tanto fim” – disse certa vez Robert Kurz – e ao que parece, antes que o fim chegue e arranque de vez os fundamentos do chão, agora iremos penar uma avalanche conservadora mundial cujo paralelo histórico será difícil de encontrar nos livros, salvo nos anos da grande crise de 29, nos passos truncados e por fim malogrados da esquerda nos anos subsequentes. Os anos da ascensão mais colossal das forças reacionárias em escala planetária, momento que nos concerne de algum modo ainda hoje, pois, como vaticinou Walter Benjamin, “por trás de todo fascismo, há uma revolução de esquerda fracassada”.

Aqui circundamos o escopo desta edição de Sinal de Menos. Sem forçar a nota nessa comparação histórica – mas sem tampouco abdicar de sua chave de leitura, pois a barbárie neoliberal e as contraposições a ela tendem a recrudescer a partir de agora – a atual avalanche conservadora brasileira e mundial e os obstáculos teóricos e práticos de uma superação imanente da crise global são os temas mais gerais deste volume da edição dupla da revista. Daí a encruzilhada sombria sugerida pela capa de Felipe Drago.

Por aqui, em clave menor, a esquerda brasileira vai sofrendo mais uma grande derrota histórica com a eleição do congresso nacional mais conservador desde 1964 e a capitulação do governo petista recém-eleito em meio a uma crise econômica e política em parte promovida por ele próprio, em parte porque vai inexoravelmente batendo nos limites do financiamento interno, da concorrência e da crise globais.

No mundo todo, nessa conjuntura tenebrosa, brilha a luz bruxuleante de uma grande presença-ausência: de um lado, ensaios de contestação teórica e prática da sociedade das mercadorias, de outro, os aparelhos de coação e captura de todo movimento vivo sob a jaula de aço das medidas de austeridade e de promoção neoliberal de um mundo privado da razão, moldado pela economicização da vida até a morte e as medidas de emergência reprodutoras do sistema.

No horizonte, apenas a “tempestade perfeita” de uma “direitização da direita” (Paulo Arantes) que ofusca toda visão e forja os seus filhotes mimados, amantes da jaula em que nasceram – nadando na superfície do mar de seus privilégios, ou muito menos que isso – liberando o ódio e os cães de guarda contra quem pretende serrar as suas barras. O risco é então o de regredirmos em toda linha numa espécie de ―contrarrevolução sem revolta‖, algo que vai dando nó na cabeça dos marcuseanos herdeiros de 68. Com o que, para nós, então, é preciso repensar o que se tinha por certo, a suposta rebelião ou revolução inscrita no curso do progresso das forças produtivas, mas que é ainda pouco ou nada na falta da constituição de um movimento prático de êxodo da imanência do Capital. Como já dizíamos na apresentação da revista em nosso primeiro editorial: “as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para a reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador.”

Após um longo intervalo devido à conjuntura movimentada do cenário eleitoral, Sinal de Menos chega mais encorpada, com uma edição dupla. Este primeiro volume contém artigos mais focados nos aspectos conjunturais, partindo de uma ENTREVISTA de CHARLES REEVE sobre o renascer de movimentos contestatórios no cenário mundial, da China à Europa e Estados Unidos, com destaque para a crise social na Espanha e o movimento dos Indignados. O segundo volume terá a honra de trazer uma entrevista com PAULO ARANTES, um dos mestres da análise da formação brasileira e da crítica do estado de emergência mundial, que se constitui como o pano de fundo teórico de muitas de nossas análises nas duas edições.

A seção de ARTIGOS inicia-se com o texto de JOELTON NASCIMENTO, ANTICAPITALISMO PARA O SÉCULO XXIUm breve panorama da nova crítica do valor, em que o autor apresenta em linhas gerais as teses defendidas pela Nova Crítica do Valor (NCV), consolidada principalmente em torno das revistas Krisis e Exit!, além da discussão de referências sobre alguns de seus precursores.

Escrito por ocasião dos 15 anos das manifestações de Seattle (novembro de 1999), o segundo artigo, ESTAMOS PERDENDO!, de RAPHAEL F. ALVARENGA, propõe um balanço crítico do altermundialismo do início do século, contrastando-o em seguida com formas de protesto e teorizações mais recentes.

Em seguida, publicamos o ensaio de ANDRÉ VILLAR GOMEZ e MARCOS BARREIRA, A CATÁSTROFE COMO MODELOAgronegócio, crise ambiental e movimentos sociais durante o decênio 2003-2013. Com riqueza de detalhes empíricos e uma análise crítica refinada pelas lentes da crítica do valor, os autores comparam e confrontam as ideologias e os reais custos socioambientais do complexo agroindustrial brasileiro montado nas últimas décadas, apontando as irracionalidades de tal modelo agrário.

Em SOCIALISMO OU BARBÁRIE?, DANIEL CUNHA comenta a reação de certos setores da esquerda ao recente atentado na França. O que se desvela é que certas ideologias identitárias pretensamente de esquerda do capitalismo de crise, na falta de um arsenal crítico adequado, acabam por borrar a distinção entre as lutas emancipatórias e o terrorismo e, no limite, acabam por legitimar a barbárie.

Na sequência, temos sete textos que pensam a ascensão conservadora no atual contexto. Em A ESPUMA, A ONDA E O MAR DA REAÇÃOCruzando o fantasma autoritário brasileiro, BOB KLAUSEN busca caracterizar as forças conservadoras que retomaram o espaço público brasileiro nos últimos anos, decifrando seu imaginário autoritário por meio das estruturas e práticas sociais que o constituem. Em O OTIMISMO E O PÊNDULO: o duro aprendizado de caminhar em terreno movediço, DOUGLAS ANFRA desdobra as dificuldades de organização dos movimentos sociais na atual conjuntura, o que nos faz questionar todo “otimismo da prática”, considerando a relativa perda de força da mobilização de esquerda e a ascensão da direita no país, ambos escapando a esquemas conceituais prévios. No próximo artigo, DESTINOS DO ÓDIO SOCIAL E A ENCRUZILHADA DA ESQUERDA, BRUNO KLEIN esboça uma fina análise desse sentimento primário expresso pela direita nas ruas como uma espécie de retorno do recalcado. O autor mede os possíveis riscos, nesse momento, de uma adesão social dos oprimidos e estropiados a esse mecanismo compensatório, que os levaria à identificação com uma classe cuja ideologia já não reivindica o menor verniz de civilidade. Em “FOGO AMIGO”A incubadora petista da avalanche conservadora, PAULO MARQUES traça uma série de elementos históricos envolvidos na capitulação do Partido dos Trabalhadores, da apologia indireta à participação direta na reprodução da ordem capitalista, por fim ajudando a chocar o ovo da serpente desse ―fascismo à brasileira‖ que hoje vai pipocando nas ruas e no espírito das massas. Em seguida, G. ÉMEUTES, em PASSEIO PELAS GREVES PARANAENSES DA EDUCAÇÃO EM ALGUMAS NOTAS, faz um balanço das greves contra o governo tucano de Beto Richa e do processo de organização contra o cerco autoritário que ele impõe. No próximo texto, temos o ensaio de ATANÁSIO MYKONIOS, SOBRE A MAIORIDADE PENALUma ação preventiva do capital, o qual traça a relação entre o projeto de redução da maioridade penal e a desvalorização da força de trabalho no país, segundo o jogo de determinações econômicas, políticas e culturais. Finalmente, em GERAÇÃO SARRAZIN (Breve esboço da gênese da nova direita alemã), de TOMASZ KONICZ, autor dos círculos alemães de crítica do valor Krisis, Exit! e Streifzüge, passa-se à discussão da configuração do neofascismo islamofóbico do PEGIDA e de outros aspectos da reação e do caráter autoritário na Europa.

Em seguida, temos um texto de crítica literária. Trata-se da análise de um romance clássico ainda hoje subestimado e mal interpretado: em ESTADO DE PESTE / ESTADO DE SÍTIOPara reler A peste, de Camus, CLÁUDIO R. DUARTE busca arquitetar o ponto de vista de seus referentes históricos captados pela malha de seus significantes enigmáticos, muitos inclusive surpreendentes, em que é refletida tanto a experiência dos regimes de exceção, a partir da África colonial francesa e da ocupação nazista na França, quanto a organização prática de uma ―revolta‖ fundada numa relação ética solidária entre indivíduo e grupos socialmente construídos. Acompanhando esse ensaio, temos uma tradução de um texto conhecido de JEAN-PAUL SARTRE, escrito logo após o fim da grande guerra: O QUE É UM COLABORADOR? – o qual desenha uma fisionomia social e moral do indivíduo que colabora com o domínio nazista e o governo de Vichy. Que fique aqui a sugestão de se traçar um dia um paralelo deste colaborador sombrio com o “colaborador” da empresa e do mundo neoliberal atual.

Em MISÉRIAS DO PRIMITIVISMO, DANIEL CUNHA resenha Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, de Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. O autor critica as suas tendências malthusianas e regressivas, que resultam de um déficit dialético e materialista da crítica do capital e das forças produtivas, que no entanto podem soar atraentes no clima de “fim do mundo” da crise ecológica global.

A revista fecha com COMUNIZAÇÃO NO PRESENTE, do grupo francês THÉORIE COMMUNISTE. Os autores buscam articular as noções de classe e proletariado no capitalismo de crise – o proletariado como classe negativa e como o seu próprio limite, que coloca a comunização na ordem do dia, aliando crítica radical do valor e perspectiva de classe. Trata-se, de certa forma, do avesso da conjuntura.

Abril de 2015

[-] Sumário #11, vol. 1

Editorial

Entrevista

Os movimentos indignados e a luta de classes
 com Charles Reeve, por Stephane Julien e Marie Xantrailles

Artigos

Anticapitalismo para o século XXI
Um breve panorama da nova crítica do valor
Joelton Nascimento

Estamos perdendo! 
Do altermundialismo à indignação multitudinária: balanço da resistência global quinze anos após Seattle
Raphael F. Alvarenga

A catástrofe como modelo
Agronegócio, crise ambiental e movimentos sociais durante o decênio 2003-2013
André Villar Gomez e Marcos Barreira

Socialismo ou barbárie?
Daniel Cunha

A espuma, a onda e o mar da reação
Cruzando o fantasma autoritário brasileiro
Bob Klausen

O otimismo e o pêndulo 
O duro aprendizado de caminhar em terreno movediço
Douglas Anfra

Destinos do ódio social e a encruzilhada da esquerda
Bruno Klein

“Fogo amigo” 
A incubadora petista da avanlanche conservadora
Paulo Marques

Passeio pelas greves paranaenses da educação em algumas notas 
G. Émeutes

Sobre a maioridade penal
Uma ação preventiva do capital 
Atanásio Mykonios

Geração Sarrazin 
Breve esboço sobre a gênese da nova direita alemã
Tomasz Konicz

Estado de peste / Estado de sítio 
Para reler A peste, de Camus
Cláudio R. Duarte

O que é um colaborador? 
Jean-Paul Sartre

Misérias do primitivismo 
Resenha de Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins
Daniel Cunha

Comunização no presente
Théorie Communiste

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2 Comentários

  1. Olá. Nos outros anos cada artigo tinha um link para download, esse ano só tem o link para download da revista inteira. Como posso baixar os artigos por autor?


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