Sinal de Menos #11, vol. 2

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E aqui segue o segundo volume deste número 11 de Sinal de Menos.

Vem na hora crítica em que a totalidade há muito perdida parece ainda mais eclipsada por toneladas de discurso ideológico à direita em conjunção com a tentativa de destruição ou neutralização prática de toda oposição política, dinamitando os caminhos clássicos trilhados pela esquerda até então.

Ao nosso redor, nesse sumo breu, um barulho monstruoso e a tarefa de entender teoricamente o desastre que na verdade já ocorreu e apenas se aperfeiçoa – da favelização mundial à crise energética e ambiental global, do discurso neoliberal totalitário aos projetos de reconstrução de uma natureza pós-biológica e pós-humana – sob o pano de fundo inconsciente dos limites que o capital põe para o próprio capital a cada nova rodada da acumulação e de uma administração emergencial de crises em cadeia. Eis aí as capas de Felipe Drago para ilustrar esse trajeto pontilhado pelos ensaios deste número duplo da revista, em que os trilhos de saída desse mundo ofuscado precisarão ser reconstruídos palmo a palmo – se caso o que se costuma denominar “sociedade” quiser buscar de fato uma saída. A situação que vem à mente é a daqueles burgueses viajantes de um trem na miniparábola de Kafka publicada em nosso terceiro número:

Nós estamos, vistos pelo olho manchado de mundanidade, na situação de viajantes de uma estrada de ferro que sofreram um acidente dentro de um longo túnel, e mais especificamente, em um ponto no qual não se vê mais a luz do princípio e em que se vê a luz do final de forma tão exígua que o olhar irá buscá-la constantemente e irá perdê-la constantemente, de forma que não serão nem mesmo distinguíveis o começo e o fim. Ao nosso redor, porém, encontramos, na confusão dos sentidos ou na mais alta excitabilidade dos sentidos, uma barulhenta monstruosidade e um encantador ou tedioso jogo caleidoscópico, a depender do humor ou do ferimento de cada um. O que devo fazer? ou: Para que devo fazer isso? não são perguntas dessas paragens.

Conforme anunciado no editorial do primeiro volume deste número, a revista inicia com uma ENTREVISTA especial de PAULO ARANTES com Marcos Barreira e Maurilio de Lima Botelho no início deste ano, em que o grande crítico brasileiro retoma alguns dos temas abordados em seu último livro, O novo tempo do mundo (e outros estudos sobre a era da emergência) além de outros assuntos recentes: da capitulação petista à recente “direitização da direita” após as Jornadas de Junho de 2013, passando pela discussão de temas capitais de uma série de críticos como Wacquant, Marcuse, Debord e Lasch, concentrando-se nas ilusões do desenv olv imentismo dito “emergente” e em v ários desd obramentos da crise sistêmica global e do novo regime de tempo histórico diagnosticado como um regime de exceção e de urgência permanentes.

Nossa seção de ARTIGOS abre com um ensaio de DANIEL FELDMANN, SOBRE O LIMITE ABSOLUTO DO CAPITAL (Especulações acerca de uma hipótese teórica), em que o autor discute a hipótese fundamental da teoria das crises de Marx tal como elaborada pelos círculos alemães da crítica do valor, Krisis e Exit!.

Em A POTÊNCIA DO ABSTRATO (Resenha com questões para o livro de Moishe Postone), CLÁUDIO R. DUARTE faz uma apresentação dos temas de Tempo, trabalho e dominação social, livro do autor norte-americano recém lançado no Brasil, focando no conceito de trabalho como mediação social abstrata, para em seguida colocar algumas objeções a sua formalização e desenvolvimentos, principalmente quanto à tentação de abstrair o movimento fetichista do Capital de seus agentes, que tanto o personificam quanto o concretizam socialmente, não apenas como funções abstratas mas como “funções” incompletas, não totalmente objetivas, que se realizam através das lutas de classes semeadas e afloradas no seio de estruturas e espaços sociais particulares, mais ou menos abertos ao devir e ao indeterminado, sem metafísica e sem teleologia inerentes. O que permite a Marx conceber, além do fetiche do trabalho e do capital, o fundo “abissal” da formação, a qual tende a cindir o corpo social em campos antagônicos, tornando a contradição objetivada por assim dizer “visível” e “nomeável”. Eis o que permite repensar o inominável “sujeito” de classe gerido e arrastado até mais ver pelo sistema de acumulação, mesmo em seu aparente esgotamento formal.

No terceiro ensaio deste número, A DEMOCRACIA E O SONO DA HISTÓRIA (Fragmentos), RAPHAEL F. ALVARENGA reflete sobre as variações do conceito de democracia no ocidente a partir de observações de críticos como Bertolt Brecht, Walter Benjamin, Mario Tronti e Guy Debord.

Em DIREITO E INTERCÂMBIO SOCIALHipóteses sobre a forma e a função do direito à luz do desenho histórico-estrutural de Kojin Karatani, JOELTON NASCIMENTO traça comparações históricas de noções do direito em diversas formações históricas a partir do livro mais recente do teórico japonês Kojin Karatani, no entendimento de que essa operação contribui para a reconstrução da crítica anticapitalista do direito.

Os dois próximos ensaios fazem uma incursão em clássicos do marxismo. Em ISAAK RUBIN E GYÖRGY LUKÁCSAs origens da “leitura crítica” de Marx na década de 1920, MARCOS BARREIRA propõe uma comparação de dois teóricos pioneiros daquilo que se pode designar como uma leitura crítica do fetichismo e da reificação das relações sociais capitalistas. Enquanto por outro lado, ROBERT BÖSCH, autor ligado ao Grupo Krisis, propõe uma análise crítica do politicismo gramsciano, em O RENASCIMENTO MILAGROSO DE ANTONIO GRAMSCI, apontando, por exemplo, alguns paradoxos de um teórico marxista da modernização burguesa tardia capaz de ser apropriado ao mesmo tempo pela esquerda e pela direita.

A revista continua com análises de questões empíricas fundamentais. Em FAVELIZAÇÃO MUNDIAL – O colapso urbano da sociedade capitalista, MAURÍLIO LIMA BOTELHO explora um dos aspectos mais evidentes da crise urbana, o processo de favelização mundial. Fazendo uso de vários relatórios oficiais do programa das Nações Unidas para problemas urbanos, o texto aponta para alguns traços originais nesse processo que o tornam ainda mais dramático e indicam um colapso das estruturas urbanas: a urbanização sem geração de empregos, a dinâmica de urbanização puxada pela favelização, a formação de um mercado informal em torno dos imóveis e até mesmo uma incipiente reintegração miserável de trabalho e moradia. O artigo assume um tom descritivo cujo papel é acumular características que serão posteriormente analisadas teoricamente numa reflexão mais profunda sobre o colapso urbano capitalista. Em CIBERATIVISMO, O PARADIGMA DO ANTIPODER E AS FISSURAS DO CAPITALISMO (A revolução em tempos de internet), SÍLVIA RAMOS BEZERRA estuda as práticas do ciberativismo como possíveis maneiras de “fissurar” o poder capitalista, quando pensado em sua inserção num processo maior de contraposição social ao sistema.

Temos a seguir três textos que tratam de questões materiais e ecológicas em sua relação com o capitalismo. Em PÓS-NATUREZAPilhagem ecológica e os monstros do capital, ANDRÉ VILLAR GOMEZ trata dos delírios do capital consubstanciados em projetos tecnológicos de manipulação da natureza biológica e humana – que teriam como resultado final a realização do sonho do capital: livrar-se da matéria. Em seguida, segundo tradução de Daniel Cunha, JOHN BELLAMY FOSTER, BRETT CLARK e RICHARD YORK, no artigo O CAPITALISMO E A MALDIÇÃO DA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, tratam do “Paradoxo de Jevons”, segundo o qual a maior eficiência no uso da energia resulta não em sua conservação, mas em consum o aumentado. Os autores resolvem o “paradox o” com teoria marxiana, mostrando que, no capitalismo, a eficiência se converte em uma força destrutiva , contestando assim a tese da “desmaterialização”. De certo modo complementando esse assunto, DANIEL CUNHA investiga a questão da viabilidade material de uma transição solar sem carência energética e sem aquecimento global catastrófico, no artigo A TRANSIÇÃO SOLAR COMO POSSÍVEL- IMPOSSÍVEL. Através de um modelo matemático, mostra-se que ela é possível, mas é truncada pelo m od o de socia lizaçã o baseado na valorização do valor, configurando de forma visível a contradição entre valor e riqueza material.

Finalmente, em O DINHEIRO COMO CORAÇÃO DAS TREVASNota sobre o último livro de Robert Kurz, DANIEL CUNHA comenta em breve resenha o último livro do autor alemão, intitulado Dinheiro sem valor, mostrando que o livro publicado postumamente trouxe importantes desenvolvimentos teóricos na obra do autor.

A revista fecha com O QUE FALTA? – um texto em forma de versos ou pontas soltas, difícil de classificar (poema, miniconto, paródia, recorte irônico de discursos ready made?), em que FRANCISCO C. enumera elementos do jargão empresarial contemporâneo e sua máquina de adestramento, estimulando no leitor a salutar aversão ao imperativo totalitário da mercadoria e do trabalho abstrato.

A revista continua aceitando contribuições, tendo a intenção de ampliar a participação e a colaboração, dada ainda a necessidade de ampliar os(as) editores(as) permanentes da revista. Boa leitura!

Maio de 2015.

[-] Sumário #11, vol. 2

Editorial

Entrevista

Paulo Arantes, com Marcos Barreira e Maurilio Lima Botelho

Artigos 

Sobre o limite absoluto do capital
Especulações acerca de uma hipótese teórica
Daniel Feldmann

A potência do abstrato
Resenha com questões para o livro de Moshe Postone
Cláudio R. Duarte

 A democracia e o sono da história
Fragmentos
Raphael F. Alvarenga

Direito e intercâmbio social
Hipóteses sobre a forma e a função do direito à luz do desenho histórico-estrutural de Kojin Karatani
Joelton Nascimento

Isaak Rubin e György Lukács
As origens da “leitura crítica”de Marx na década de 1920
Marcos Barreira

O renascimento milagroso de Antonio Gramsci
Robert Bösch

Favelização mundial
O colapso urbano da sociedade capitalista
Maurilio Lima Botelho

Ciberativismo, o paradigma do antipoder e as fissuras do capitalismo
A revolução em tempos de internet
Sílvia Ramos Bezerra

Pós-natureza
Pilhagem ecológica e os monstros do capital
André Villar Gomez

O capitalismo e a maldição da eficiência energética
John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York

A transição solar como possível-impossível
Daniel Cunha

O dinheiro como coração das trevas
Nota sobre o último livro de Robert Kurz
Daniel Cunha

O que falta?
Francisco C.

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2 Comentários

  1. Caros editores, gostaria de parabenizá-los pela edição do último número e gostaria também de saber quais são as normas para publicação.
    Abraços!


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