Sinal de Menos #12, vol. 1

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Após outro longo intervalo, publicamos aqui mais uma edição dupla de Sinal de Menos.

O mundo do capital segue seu curso de colisão, como diagnosticamos em números anteriores da revista. De 2014 para cá, passando pelo “golpeachment” de 2016, o Brasil confirma-se na vanguarda dos processos mundiais de retrocesso. A retomada do poder por uma camarilha de conspiradores e tecnocratas blindados pela mídia, verdadeiros usurpadores profissionais da pilhagem social, que por uma década toleraram os aprendizes da rapina sistemática oriundos do meio sindical para fins de “gestão da barbárie”, só pode nos conduzir agora a uma maior destruição dos direitos sociais e a um domínio cada vez mais rígido da lógica do mercado – na verdade, do capital global em fase de esgotamento de sua valorização real.

Um processo de estilhaçamento social para o qual a palavra “golpe” começa a parecer inadequada, como Paulo Arantes notou ainda há pouco, considerando-se que tudo foi conduzido aparentemente na mais estrita conformidade das leis. É claro que com as devidas torções interpretativas de sentido, deixando coexistir lado a lado casos em que elas se aplicam e não se aplicam, tudo em certo grau dependendo do casuísmo do bloco de poder mais forte do momento. Por outro lado, parece que o próprio estado de exceção redefine suas formas quando um ordenamento social que já o aplicava em certos espaços não é cancelado e suspenso para implantar uma outra Ordem, dessa vez mais rígida e com um projeto de integração abertamente autoritário como o de 1964, mas para implantar a rapina e a desintegração social sob a capa ideológica da “legalidade democrática”, da restauração das “liberdades” e da “lógica do mercado”. Na consciência social e na opinião forjada pela indústria da cultura pode até parecer que tudo vai voltando ao normal. Se não estamos enganados, hoje vivemos algo como uma renaturalização das estruturas fetichistas do capital. O resultado mais claro disso foi o avanço da direita em todo o país nas últimas eleições municipais e a impotência da massa diante da “ponte para o retrocesso” que vai sendo construída.

Contudo, de maneira mais ou menos prevista após a crise de 2008, o declínio do preço das commodities, o aumento do déficit fiscal, da frustração de receitas, além da ampliação insana de pagamentos de juros da dívida pública, o Brasil entra na rota do desfiladeiro das modernizações retardatárias. A normalidade é pura ideologia. Não por acaso as reformas arrasa-quarteirão planejadas surgem no momento exato do agravamento da crise, logo após o novo tipo de golpe palaciano inventado. Da destruição prometida pela reforma previdenciária à reforma trabalhista, da reforma do Ensino Médio e do SUS à liquidação geral do patrimônio público até, enfim, a chamada “PEC do fim do mundo”, o que aparece claro já na superfície é a imposição do mais puro economicismo, para o aplauso dos mercados. O que é imposto o mais velozmente possível através de um governo ilegítimo e inimigo do debate público, mediante a estratégia terrorista-midiática “suave” campeã em indignação seletiva, um setor comprado por gordas verbas de publicidade, vale lembrar. Um conjunto de forças conservadoras que insufla uma incontável perseguição antiesquerda, digna dos dias da guerra fria. “Ordem e progresso”: até mesmo o lema positivista da bandeira foi ressuscitado. Eis aí a nossa contribuição para a renovação da Doutrina do Choque, tal qual anunciada por Naomi Klein.

Como estamos na periferia, porém, o buraco é sempre mais embaixo e parece não haver limite para a rapina e a degradação social, bem como para a violência repressiva que se seguirá, e que no momento, aliás, deve estar sendo preparada. O ritmo brasileiro daqui para diante parece ser então o de uma espiral paradoxal de “reformas destrutivas” em doses cavalares, também conhecidas eufemisticamente como “ajustes neoliberais” e “políticas de austeridade”. Se tudo isso se confirmar, teremos um claro desmonte do Estado nacional, não evidentemente como sua superação por formas de democracia direta, participativa e descentralizada, mas antes como sua anexação quase imediata pelas forças do capital e dos estratos burocráticos corrompidos. O aumento das disparidades sociais é certo, embora não esteja fora de cogitação a retomada de investimentos e de um certo crescimento de tipo “canibal” sobre a força de trabalho e os recursos naturais. Se uma tal decomposição social assim se realizar ela também será passível de ser virada dialeticamente do avesso, prenunciando a ruptura do novo consenso de aço que renaturalizou o fetiche. Que tipo de lutas e práticas sociais isso suscitará é uma página inteiramente em branco.

Ocorre que no momento em que as forças produtivas atingem níveis que poderiam libertar a sociedade não apenas do trabalho excedente, mas do trabalho abstrato em geral e do sistema produtor de mercadorias como totalidade, mais ela se enreda nessas formas, mais trabalho ela exige de suas criaturas deformadas, que, por uma espécie de “encantamento”, como diria Adorno, começam a incorporar positivamente a lógica do desmanche e da dessolidarização como destino inevitável e até mesmo como oportunidade de ganhos extraordinários. É que o estado de exceção inaugura todo tipo de suspensão de regras da civilidade burguesa, incluindo seu sujeito histórico liberal “responsável”, subjugado pelas formas de um sobrevivencialismo narcísico e de uma regressão que traz à tona formas de preconceito e ódio reativo. É assim que a CAPA da revista elaborada por FELIPE DRAGO, inspirada em desenho do “Proyecto Cabra”, remete aos sonhos malignos de ódio cego e sem direção que estão sendo destravados. É como se na ausência do grande Outro uma série de pequenos outros desabrochasse sem pautas, a não ser a da (auto)destruição. Após a queda do pai e da erosão da Lei, ainda mais corroída pela acumulação digital e flexível, a massa neoliberalizada pelos fundos “foge para as colinas”, nas asas de governos conservadores, francamente autoritários ou apenas austericidas, como se vê em diversas partes (EUA, Ucrânia, Hungria, Turquia, Filipinas, Tailândia, Egito, Brasil, Grécia, Espanha, França, dentre outros), e isso sem falar no Estado Islâmico e nas dezenas de regimes monárquicos, fundamentalistas e ditatoriais espalhados pelo mundo. A incorporação da lógica da concorrência no caráter e no comportamento por meios tão diversos quanto o emprego, a mídia e as redes sociais, a escola e a cultura do empreendedorismo só encontrará seu limite se a objetividade da crise aparecer como crise do sistema do capital e não deste ou daquele governo isolado. Para isso servirá a teoria crítica que se acumula à margem da práxis existente, necessária e urgente como momento de um longo processo de transição, mas frágil e limitada para as tarefas que despontam no horizonte.

Esses temas não deixam de comparecer neste novo número de Sinal de Menos, em que temos dois dossiês: ANSELM JAPPE e JAMES JOYCE.

A revista inicia-se com uma nota explicativa ao DOSSIÊ JAPPEAs Aventuras do Sujeito – traduzido por Fred Lyra e Pedro Henrique de Mendonça Resende, aos quais a revista gostaria muito de agradecer publicamente. Partindo da teoria da Wert-Spaltung (que vem sendo traduzido por “dissociação-valor”, ou “valor-cisão” [de gêneros]) de Kurz e Scholz (entre outros), ANSELM JAPPE tece as relações entre fetichismo da mercadoria e narcisismo, que poderia ser interpretado como o lado subjetivo do primeiro. Em questão – para nós aberta – fica a forma do eu moderno ou a forma do sujeito em geral (nesse caso, incluindo toda a estrutura pulsional freudiana). O dossiê reúne primeiramente um pequeno excerto de ENTREVISTA concedida a um colaborador da editora portuguesa Antígona, em que o escritor apresenta o projeto de seu livro intitulado As aventuras do sujeito, a ser publicado na França em 2017. Seguem-se três artigos publicados entre 2012 e 2016 por Jappe, que gentilmente autorizou sua tradução: NARCISISMO E FETICHISMO DA MERCADORIA – Algumas observações a partir de Descartes, Kant e Marx; NARCISO OU ORFEU? – Observações sobre Freud, Fromm, Marcuse e Lasch; e DA “AURA” DOS ANTIGOS MUSEUS E DA “EXPERIÊNCIA” DOS NOVOS.

O segundo DOSSIÊ, dedicado a JOYCE, inicia-se com dois ensaios corajosos de RAPHAEL F. ALVARENGA. No primeiro deles – FORMA, ESTILO, PASTICHEConsiderações sobre o Ulysses de Joyce – o autor expõe alguns pressupostos para uma leitura crítica e materialista do escritor irlandês, especialmente dessa obra maior do modernismo literário que continua sendo o Ulysses. No segundo – HAMLETS DE FARDA NÃO HESITAM Uma leitura materialista do Ulysses –, uma crítica refinada desse romance é buscada de acordo com o trajeto anteriormente apresentado, através de uma série de interpretações de pontos cruciais em cada capítulo da obra. Tal leitura redescobre o coração pulsante de sua forma heterogênea, capaz de incorporar estilos os mais variados sem perder nada em sua determinação pelo conteúdo social, fundado que está na penetração da lógica do capital numa sociedade semiperiférica e dependente, com personagens moldadas e mobilizadas pelo processo, numa espécie de mimese construtiva exuberante de uma base de vida miserável. E que apenas em sua desolação e identificação negativa pode suscitar algum desejo de ruptura. O dossiê finaliza com o artigo de CLÁUDIO R. DUARTE – PERIFERIA/PARALISIAA figuração do inferno colonial no primeiro Joyce. O ensaio mostra a evolução do escritor de Chamber Music a Dubliners, no início do séc. XX, interpretando sua recriação paródica do Inferno de Dante, especialmente no conto cortante intitulado “Counterparts”. Temos aí um Joyce mais seco, mais objetivo, mais econômico, mas já afinado às dissonâncias de uma sociedade neocolonial que delineia incessantemente uma espécie de “movimento paralítico”: cristalizado entre o mito e a história, o ensaio de mudança e o seu desaparecimento, soçobrando na mesmice do estado de exceção irlandês e da abstração real capitalista. De certo modo, os dois dossiês da revista parecem formar um vínculo subterrâneo na medida em que pensam os antagonismos estruturais constitutivos do sujeito e do indivíduo modernos.

A revista prossegue com questões relacionadas ao trabalho, à crítica musical e aos movimentos possíveis na sociedade urbana. No artigo de título irônico – O TRABALHO EM MARX É ONTOLÓGICO, #SQN; Crítica categorial da forma limitada da atividade humana – THIAGO FERREIRA LION e THIAGO ARCANJO CALHEIROS DE MELO destrincham o suposto caráter ontológico da categoria trabalho em Marx. O artigo traz diversas citações nas quais o revolucionário alemão deixa entrever uma diferente forma de lidar com tal categoria, concebendo-a como radicalmente histórica. O texto visa tratar o tema de maneira simples e renovada, partindo de perguntas como: “regar as plantas é trabalho?”. Tal abordagem tem o intuito de demonstrar que a atividade materialmente determinada em si importa menos para sua categorização que sua relação com outras atividades abstratamente comparadas por meio do mercado, afinal, poucos considerariam regar seu próprio jardim como sendo trabalho, mas ninguém negaria que um jardineiro que “ganha” para regar o jardim de outrem está trabalhando. Apesar do esforço em dialogar o mais amplamente possível, o artigo expõe formulações bastante complexas, todas postas a partir do panorama histórico do desenvolvimento das relações mercantis e da oposição entre realidade e consciência. Esta última reflexão, por sua vez, nos revela identidades entre a crítica categorial esboçada em Marx – e desenvolvida pela Crítica do Valor – e aspectos fundamentais da teoria de Hegel.

A seguir, temos o ensaio de FRED LYRA, intitulado POR UMA NOVA CRÍTICA DA MÚSICA Primeiras notas, que busca introduzir algumas ideias para a renovação deste que é, historicamente, um dos principais eixos da crítica da arte e ideologia: a crítica musical. Inicia com um diagnóstico feito a partir das ideias do filósofo Paulo Arantes sobre a temporalidade atual da música. No segundo momento, nos deparamos com uma crítica e análise daquela que parece ser a forma de escuta predominante no mundo presente: a forma do condomínio. Na sequência, o texto discute Simbolismo e Sentido, Função e Utilidade onde aparecem algumas questões fundamentais em torno desses quatro conceitos. Por fim, o artigo sintetiza algumas diretrizes básicas em relação à posição do personagem ou sujeito que é um dos eixos da questão: o músico – muitas vezes esquecido em detrimento do objeto música.

Ao final temos dois ensaios que articulam reflexões sobre um processo de reversão prática do existente. Em ENTRE UMBRAIS E VIRTUALIDADES – Mundos possíveis?, HELENA CASTELLAIN BARBOSA DE CASTRO dá um tempero mais otimista à revista, relembrando as questões lefebvrianas que nascem no seio de uma “sociedade urbana” em vias de se completar, concentradora que é das mais agudas contradições do espaço, apontando-nos que o trem desgovernado em que viajamos pode descarrilar assim que forem ultrapassados certos umbrais teóricos e práticos. Já no artigo de FRANK RUDA (gentilmente indicado e traduzido por Luiz Philipe de Caux), COMO AGIR COMO SE NÃO SE FOSSE LIVREUma defesa contemporânea do fatalismo, o autor baseia-se em Descartes, Kant, Hegel e Marx – tirante este último, eis a tradição duramente criticada por Jappe – a fim de oferecer uma abordagem crítica do estado subjetivo hoje predominante: a indiferença. Suas coordenadas conceituais são elaboradas sistematicamente e é mostrado em que sentido ela implica, em última análise, uma concepção problemática e mal compreendida de liberdade. Tendo como pano de fundo essa análise, o artigo defende o fatalismo como um meio possível para enfrentar estados de indiferença e, desse modo, dar um passo da análise crítica à formulação afirmativa de um princípio de orientação: “age como se não fosses livre”. Se isso é ou não uma questão plausível, para dizer o mínimo, fica para o leitor julgar e decidir. O fato menos controverso parece ser que a realidade degradada atual não pode deixar as pessoas indiferentes ad eternum.

Por isso mesmo a revista termina com a salada de palavras grotescas, colhida e servida na hora da sessão de admissibilidade do IMPEACHMENT de Dilma, na Câmara dos Deputados, captada por uma arguta observadora, CAMILA PAVANELLI DE LORENZI, a qual agradecemos pelo registro da farsa tragicômica do desmanche nacional.

Em outros termos, e como reforçará nosso segundo volume, o fim do mundo da mercadoria já chegou para a maioria – talvez não apenas no seu condomínio.

Novembro de 2016.

[-] Sumário #12, vol. 1

Editorial

DOSSIÊ ANSELM JAPPE

Projeto As aventuras do sujeito
Nota introdutória
Pedro Henrique de Mendonça Resende

Entrevista com Anselm Jappe

Narcisismo e fetichismo da mercadoria
Algumas observações a partir de Descartes, Kant e Marx
Anselm Jappe

Narciso ou Orfeu?
Observações sobre Freud, Fromm, Marcuse e Lasch
Anselm Jappe

Da “aura” dos antigos museus e da “experiência” dos novos
Anselm Jappe

DOSSIÊ JAMES JOYCE

Forma, estilo, pastiche
Considerações sobre o Ulysses de Joyce
Raphael F. Alvarenga

Hamlets de farda não hesitam
Uma leitura materialista de Ulysses
Raphael F. Alvarenga

Periferia / paralisia
A figuração do inferno colonial no primeiro Joyce
Cláudio R. Duarte

ARTIGOS

O trabalho em Marx é ontológico, #SQN
Crítica categorial da forma limitada da atividade humana
Thiago Ferreira Lion e Thiago Arcanjo Calheiros de Melo

 Por uma nova crítica da música
Primeiras notas
Fred Lyra

Entre umbrais e virtualidades
Mundos possíveis?
Helena Castellain Barbosa de Castro

Como agir como se não se fosse livre
Uma defesa contemporânea do fatalismo
Frank Ruda

(…)

Impeachment
Memória do 1o. ato da farsa brasileira de 2016

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1 Comentário

  1. O que vocês estão fazendo é simplesmente sensacional. A disponibilização gratuita de textos tão ricos e importantes quebra com ironia fina a lógica deste mundo dominado pela mercadoria. Parabéns pela iniciativa dos autores e de todos os envolvidos, são coisas assim que valem a pena. abraços


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