Sinal de Menos #12, vol. 2

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Em novembro de 2016 lançamos a primeira parte do número 12 de Sinal de Menos. Aqui segue o volume 2 deste mesmo número, apesar do longo intervalo de mais de um ano. De maneira geral, ele avança análises da decomposição social da periferia capitalista mundial e local, passando pelo estudo do processo de estruturação do Estado Islâmico e a situação atual no Oriente Médio – através de um conjunto de textos que forma um Dossiê Islamismo –, além da crítica marxista das formas jurídicas, a análise das bases do pensamento neoliberal, a discussão teórica sobre as lutas de classes e a reavaliação de um poeta das ruínas novinhas em folha da jovem nação brasileira no fim do séc. XIX.

A revista inicia-se com a ENTREVISTA com MARILDO MENEGAT, professor Pós-doutor em Filosofia pela USP, atualmente trabalhando como professor adjunto IV na Escola de Serviço Social da UFRJ. Em uma série de perguntas respondidas por e-mail, Marildo reflete criticamente sobre a situação atual do Brasil pós-Dilma e o papel histórico do Partido dos Trabalhadores na trajetória do colapso da modernização periférica.

Na abertura da seção de artigos, temos o ensaio de MARCOS BARREIRA, “’Onda conservadora’ ou declínio social?” O texto contrapõe à ideia de “onda conservadora” uma descrição do conservadorismo como elemento ideológico profundamente arraigado na sociedade brasileira. O “pacto social” lulista é descrito como uma aliança com o conservadorismo dominante durante um período relativamente breve de crescimento econômico. Nesse contexto, o retorno de temas abertamente conservadores indicaria não uma verdadeira guinada ideológica, mas o esgotamento das formas de administração da crise social da era Lula.

Em seguida, temos o referido dossiê sobre o Islamismo, que reúne traduções de textos publicados entre 2006 e 2015 nos círculos da revista alemã Krisis, mais um texto inédito de Maurílio Lima Botelho. Em “Deus acolhe a crise”, ERNST LOHOFF afirma que as novas comunidades culturalistas são um produto da crise da sociedade da mercadoria. Em particular no espaço de influência islâmica, o fracasso da modernização recuperadora e a falência do marxismo tradicional deixou um vácuo interpretativo que foi ocupado pelo fundamentalismo islâmico. Longe de ser “tradicional”, o islamismo seria hipermoderno.

Em “O grandioso final do universalismo”, KARL-HEINZ LEWED analisa o fundamentalismo islâmico moderno como o herdeiro da “vontade popular” após o fracasso da modernização retardatária nos países de influência islâmica. De acordo com a sua análise, o ponto de vista defendido pelo fundamentalismo islâmico em oposição aos interesses particulares é o interesse geral na forma da lei e do direito, porém não mais ancorada no conjunto de uma nação, e sim em uma instância metafísica de soberania divina. Essa relação reflete a erosão das bases do Estado nacional, que não tem mais condições de mediar o conjunto dos interesses privados e de zelar pelo funcionamento geral da máquina. A fuga para a esfera transcendente revela não apenas o caráter metafísico da forma do direito, mas também a crise fundamental dessa forma.

Em “Insurreição, e depois?”, ERNST LOHOFF reflete sobre a forma dos movimentos populares “insurgentes” desta década, da Primavera Árabe aos protestos contra a Copa no Brasil, do Occupy Wall Street ao Egito, dos Indignados na Espanha aos protestos contra a Troika, entre outros. Todos esses movimentos passam por um ciclo efêmero de rebelião e resignação e, por fim, parecem condenados ao fracasso. Não importa quantos milhões de pessoas fiquem temporariamente mobilizadas sob esse auspícios, a verdadeira força de mudança social continua a ser a dinâmica capitalista. Isso significa que é necessário não somente “organização” da luta, mas uma elaboração teórico-prática que ponha radicalmente em questão a socialização pelo dinheiro e a política estatal.

LOTHAR GALOW-BERGEMANN, em “De Moscou a Mossul” argumenta que o movimento antifascista (Antifa) deve ter no jihadismo um dos seus alvos a serem contrapostos. Segundo ele, a simpatia de setores da esquerda com o jihadismo decorre da proximidade das suas concepções históricas do sujeito.

No ensaio “Desgraçadamente moderno”, NORBERT TRENKLE retoma temas desenvolvidos no texto de Ernst Lohoff. Ele argumenta que o islamismo não pode ser explicado a partir da religião, e vê um campo comum entre o fundamentalismo islâmico e a nova extrema-direita ocidental no contexto da crise do capitalismo.

Em “As origens do Estado Islâmico no Iraque: colapso social e guerra civil no Jardim do Éden”, MAURÍLIO LIMA BOTELHO refaz o percurso histórico de ascensão do Estado Islâmico (ISIS), recuperando em linhas gerais as condições sociais e econômicas do Iraque nas últimas décadas, focando nos conflitos militares que foram o pano de fundo desse processo. A rejeição jihadista ao “Ocidente” é sustentada por uma afirmação violenta de uma identidade religiosa particular, uma tentativa de enfrentar o vácuo social deixado pelo colapso econômico e estatal iraquiano. Pela complexidade do tema, o texto se prende aos limites da fundação do Califado e das operações do ISIS no Iraque.

THIAGO CANETTIERI, em “A categoria trabalho na (re)interpretação da teoria do valor e na luta de classes”, afirma que vários autores, dentro do campo marxista, se empenharam em refazer o estatuto da crítica do capitalismo. Como um dos possíveis pontos de partida para isso, considera que os processos materiais e concretos da vida social estão dominados, sobretudo, pela forma social abstrata do valor. E, nesse contexto, se faz necessário revisitar a categoria trabalho a partir de uma posição mais radical, que seja mais voltada aos fundamentos críticos da teoria marxiana. O objetivo do autor é apresentar como a categoria trabalho revisitada pode oferecer elementos para (re)interpretar a teoria do valor e da luta de classes a partir da leitura dos próprios textos de Marx.

Reflexões dessa mesma natureza ecoam pelo ensaio de DANILO AUGUSTO DE O. COSTA, em “Especulação sobre a luta de classes”, que visa, a partir da articulação da teoria da crise do capitalismo e do valor com as análises das atuais dinâmicas do poder e estudos sociológicos sobre o atual regime de trabalho e condição do proletário, especular sobre os limites da antiga forma da luta de classes, sobre as formas de lutas que passam a tomar a cena e a relevância das experiências de auto-organização e autogestão para um processo de emancipação.

DIOGO MARIANO CARVALHO DE OLIVEIRA, em seu “Direito, democracia e a política como torção do simbólico”, tem como objeto a análise do fenômeno jurídico a partir de uma abordagem dialética de alguns de seus conceitos fundamentais, principalmente no tocante às noções jurídico-filosófico-políticas de liberdade, igualdade e democracia. A partir da investigação de sua efetividade, o autor expõe as relações entre essas noções e os conceitos de forma jurídica, permitindo a compreensão de como eles se relacionam de maneira intrincada e interdependente. No entanto, o autor propõe demonstrar que a plena realização desses conceitos articula-se através da realização de puros meios escusos, ausentes de uma finalidade propriamente axiológica, que não se deixam ver sob um primeiro olhar e que acabam por legitimar o funcionamento de uma democracia que se mantém sob um regime policial excludente.

No último ensaio da revista, “Cruz e Sousa: a contraluz do Iluminismo – Poesia, abstração e história de um malogro nacional”, de CLÁUDIO R. DUARTE, temos uma reavaliação crítica da estranha poética desse artista ainda hoje mal compreendido. Em vez dos estereótipos que o classificam sem mais como um poeta simbolista e decadentista, devotado apenas a temáticas espiritualistas e esteticistas, o ensaio busca apresentar um artista bem enraizado no solo do movimento abolicionista e republicano brasileiro – entendido como um movimento pela transformação e a construção nacional, que, como se sabe, terminariam por falhar miseravelmente. O país capitalista atrasado e desigual persistiria reproduzindo seus mecanismos de dominação quase como uma “condenação fatal”. Nesta chave, sua poesia passa a ser uma espécie de contraluz do pseudoesclarecimento brasileiro, trazendo à tona o processo silenciado, apontando também o formalismo do capitalismo periférico, que gira em torno de ideias sem fundo e sem peso em nossa construção. Ao invés do clichê do poeta “abstrato” e “nefelibata”, entra a violência da abstração, da alienação, do racismo e da morte grudada na alma dos oprimidos, transpostas em páginas de grande literatura.

A revista finaliza com a resenha do novo livro de Christian Laval e Pierre Dardot – “CE CAUCHEMAR QUI N’EN FINIT PAS – Comment le néoliberalisme défait la démocratie” – por FREDERICO LYRA DE CARVALHO.

Março de 2018.

[-] Sumário #12, vol. 2

Editorial

Entrevista com Marildo Menegat

“Onda conservadora” ou declínio social?
Marcos Barreira

DOSSIÊ ISLAMISMO

Deus acolhe a crise
Ernst Lohoff

O grandioso final do universalismo
O islamismo como fundamentalismo da forma moderna
Karl-Heinz Lewed

Insurreição, e depois?
Ernst Lohoff

De Moscou a Mossul
Lothar Galow-Bergemann

Desgraçadamente moderno
Por que o islamismo não pode ser explicado através da religião
Norbert Trenkle

As origens do Estado Islâmico no Iraque
Colapso social e guerra civil no Jardim do Éden
Maurilio Lima Botelho

OUTROS ARTIGOS

Direito, democracia e a política como torção do simbólico
Diogo Mariano Carvalho de Oliveira

A categoria trabalho na (re)interpretação da teoria do valor e na luta de classes
Thiago Canettieri

Especulações sobre a luta de classes
Danilo Augusto de O. Costa

Cruz e Sousa: a contraluz do Iluminismo
Poesia, abstração e história de um malogro nacional
Cláudio R. Duarte

RESENHAS

Ce cauchemar qui n’en finit pas
Resenha comentado do novo livro de Christian Laval e Pierre Dardot
Fred Lyra de Carvalho

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