Sinal de Menos #13

Sinal de Menos 13
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“Se o travo amargo do negativo se projeta sobre o todo, para nós não se trata de atenuá-lo, mas sim de aguçá-lo, com a maior contundência possível. Pois as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador.”

Assim dissemos no editorial de nossa primeira edição, em 2009. Quase dez anos após, com a eleição de Bolsonaro, o travo parece mais amargo do que nunca. Para nós isso não é surpreendente, mas antes é a confirmação de tendências que o tempo histórico já apontava. Na revista especial de agosto de 2013, desmanchando o consenso geralmente otimista sobre as Manifestações de Junho, indicamos as linhas de força em combate nas ruas, como que tracejando a possibilidade da atual hegemonia da extrema-direita e a necessidade de crítica do conformismo neoliberal-autoritário ascendente naquele momento. A capa deste número, preparada por Felipe Drago em composição com pintura de Constant Nieuwenhuys (A liberdade insultando o povo, 1975, um desvio de Delacroix), seria uma representação in negativo da atual situação do mundo. A partir dela, muitos artigos desta edição encaminham-se na direção de pensar esta tensão social crescente entre Coerção, Desintegração e Liberdade.

Com tristeza, após nossa última edição, também recebemos a notícia do falecimento de MOISHE POSTONE, em março de 2018. Postone, de quem já publicamos uma entrevista e o seu seminal “Antissemitismo e nacional-socialismo” em nosso número 8, é referência fundamental para a crítica do valor, tendo lançado as suas bases já desde os anos 70, quando delineou a partir de sua leitura dos Grundrisse a sua conceituação do capital como uma forma impessoal e abstrata de dominação pelo trabalho. Publicamos neste volume duas traduções de suas últimas reflexões: uma Entrevista com Agon Hamza e Frank Ruda e seu artigo A crise atual e o anacronismo do valor. Em ambos, percebe-se a preocupação de Postone em compreender, no quadro geral de sua teoria, a ascensão do novo populismo de direita nos países do Norte, de forma que ele oferece chaves para se pensar também o caso brasileiro, avant la lettre. Diz Postone na entrevista que “o movimento em direção a um novo fascismo, em parte, expressa a dor vivida pelas pessoas como um resultado da transformação do capital na ausência de um movimento político que dê um sentido a essa dor de maneiras que não sejam antissemitas nem façam de bode expiatório grupos diversos de forma xenofóbica ou racista”. Entendemos que o legado teórico de Postone oferece valiosas portas de acesso para se elevar esta dor ao conceito. Isso fica bem ilustrado no texto recente que publicamos, que delineia o quadro geral de sua teoria para explicar as grandes transformações dos séculos XX e XXI, além de refletir sobre o que seria uma “crise secular da valorização”. Publicamos também o texto de Postone sobre Derrida, Desconstrução como crítica social. Aqui se evidencia a sua impressionante capacidade de interpretação histórica das formas de pensamento (pós-) modernas, rebaixando suas pretensões ao nível que lhes cabe na memória histórica das “fantologias” e “espectralidades” que, se fornecem boas perspectivas para se quebrar a linearidade do tempo histórico vazio e homogêneo do capitalismo, não nomeiam a desintegração social objetiva no cerne dos conceitos; antes, os desconstrói para poder decretar seu fim precipitado e gozar com suas dispersões, esquivando-se da crítica frontal da forma-mercadoria.

Em Constituição e destituição pelo trabalho – Observações sobre o tempo e a liberdade à margem da obra de Moishe Postone, CLÁUDIO R. DUARTE retoma a dialética do valor, do trabalho e do tempo abstrato desenhada por Postone em sua obra, apontando algumas consequências para a crítica atual do sistema. Recuperando os conceitos-chave de mediação e de dominação social abstrata pelo trabalho, o autor lança outro olhar para o que parece ser o ponto mais frágil dessa obra seminal: a crise do valor como crise da luta de classes, do paradigma produtivista do marxismo tradicional e do sujeito histórico por ele pressuposto. Em vez de despachar a questão através da negação abstrata, confirmando impressões superficiais de leitura, o autor retoma a ideia do próprio Postone de sacar da “contradição” a necessidade da “negação determinada”. Aqui, deste processo de crise e desintegração geral do sistema categorial capitalista, incluindo a destituição das formas de pensamento, subjetividades e necessidades “moldadas” pelo fetichismo, pode renascer o movimento social como libertação: superação do “trabalho livre” e do tempo social abstrato de modo imanente, que é também o movimento do próprio texto quando examinado mais de perto.

O texto A categoria trabalho abstrato e seu desenvolvimento histórico, de ERNST LOHOFF, publicado no primeiro volume da revista Marxistische Kritik (1986), como inicialmente se chamava a Krisis, é, juntamente com a “A crise do valor de troca”, de Robert Kurz, um dos primeiros ensaios da teoria da crise pensadas sob a perspectiva da “crítica do valor”. Publicamos aqui uma tradução inédita de Marcos Barreira.

A revista segue com A natureza na “contradição em processo”: contribuição para o debate da teoria da crise, artigo no qual DANIEL CUNHA procura desenvolver a teoria da crise elaborada por Robert Kurz, Moishe Postone e Claus P. Ortlieb, em específico em relação à crise ecológica e sua relação com a crise da valorização. Para tal, a partir de conceitos de Jason W. Moore, procura mostrar que o valor do capital circulante, em seu papel mediador da composição orgânica do capital, deve ser considerado na teoria da crise. A seguir, busca mostrar que noção de “naturezas históricas” (Jason W. Moore) é mais adequada do que a de “fissura metabólica” (John Bellamy Foster) para tal tarefa no quadro geral da crítica categorial do valor.

Na sequência, publicamos o texto de ANDRÉ VILLAR GOMEZ e MAURÍLIO LIMA BOTELHO, O fim do “capitalismo verde”. Após enumerar uma série de impactos ambientais de grandes proporções, o artigo busca apontar que aquele curto período em que foi propagandeado (e até mesmo acreditado) um “capitalismo verde” terminou: as preocupações ambientais foram deixadas de lado diante da contração econômica mundial, e o discurso de um mercado clean deu lugar ao cinismo da exploração dos últimos recursos naturais. Um dos argumentos do texto é que esse processo é parte integrante da crise estrutural do capitalismo, que se manifesta também como um colapso ambiental.

Seguindo os esforços de desvendar o fenômeno abstruso do bolsonarismo, RUBEM KLAUS traça dois ou três densos bosquejos sobre o problema, em A nova cruzada do fantasma autoritário brasileiroO bolsonarismo como fantasia e conclusão lógica do golpe de 64. Comprimindo o presente numa estrutura fantasmática arcaica, em que confluem relações do passado neocolonial e neoliberalismo hardcore, o bolsonarismo confirma a constante nacional de uma história que não passa, ou apenas repete a catástrofe da mesma desintegração com fins de manter a espoliação social em níveis estratosféricos, ao mesmo tempo em que praticamente liquida também o presente e o futuro, submetendo os trabalhadores à miséria, reprimindo toda oposição e desidratando a política e o Estado como possibilidade formal de resolução de conflitos. O que seria a conclusão lógica do trabalho sujo do golpe não de 16, mas de 64. O artigo aponta ainda como este projeto se distingue do fascismo original ou da “fascistização” dos Estados latino-americanos da época da Guerra Fria e por que ele tem um potencial ainda mais devastador do que esses últimos.

A seguir, publicamos o texto de DANIEL CUNHA, Bolsonarismo e “capitalismo de fronteira”, no qual o autor busca compreender esse fenômeno no quadro histórico-mundial da trajetória do capitalismo. Assim, para o autor, o bolsonarismo não pode ser compreendido no quadro de referência do nacionalismo metodológico. Trata-se, antes, de um fenômeno que não pode ser separado do capitalismo de crise global, no qual a alta composição orgânica do capital exige capital circulante barato produzido em fronteiras de mercadorias na  periferia do sistema, com a mediação dos agentes locais. A rapina e a repressão são constituintes desse papel do Brasil na divisão internacional do trabalho em plena crise de valorização. Como adendo, analisa o “antiglobalismo” representado pelo ministro Ernesto Araújo a partir da perspectiva da decomposição do valor como mediação social.

CLÁUDIO R. DUARTE, em seu Ex-homens na fronteira literária latino-americana apresenta, como indica seu subtítulo, a Tradução e análise de “Las moscas” de Horacio Quiroga. Tradução inédita, mas mais do que isso o autor analisa o que permanece latente neste e em outros textos seminais desse escritor uruguaio-argentino, precursor de grandes temas literários do continente. Nas fronteiras argentinas da selva e do chaco, ele flagra as tensões sociais que esfacelam o mito liberal do pioneiro, transpostas em forma literária sob as faces enigmáticas do horror, da abjeção e da morte, e que remetem ao sentido do processo de escravização, exploração e extermínio da população indígena e mestiça proletarizada, conduzido pelo Estado nacional e apagado da memória coletiva. Na dramatização da alucinação de um personagem moribundo, a força reflexiva de mais um desses “ex-homens” anônimos comparece nomeando uma espécie de “protofantasia” que se espalha em toda a série literária latino-americana, como índice da barbárie civilizatória do capital.

O próximo artigo, é de THIAGO CANETTIERI, Para uma crítica dos afetos da crítica. O texto reflete sobre as condições de possibilidade para uma nova crítica social a partir de um viés específico: o dos afetos. Com isso, o autor propõe uma discussão sobre angústia, desamparo e mal-estar, tentando colocá-los como substrato para a tarefa da crítica.

DANIEL CUNHA, em Crise do capital e carisma apocalíptico busca explorar e historicizar esse conceito weberiano para o entendimento da explosão trans-nacional de figuras carismáticas. Para tanto, constroi um modelo no qual insere tal noção no curso da “trajetória da produção” (Postone), usando também o conceito “esotérico” marxiano do Estado (como alienação). Com isso, a explosão carismática é situada historicamente na época do “anacronismo do valor”, de modo que se diferencia das explosões de carisma históricas.

O mesmo autor, em Pós-capitalismo regressivo e “inércia conceitual” especula sobre os limites epistemológicos da ciência social, inclusive da dialética, na era da crise da formação histórica que dá origem às próprias categorias de pensamento, argumentando que a crise do capital é também uma crise epistemológica. Mais do que isso, o autor coloca a provocação: já não estaríamos vivendo sob as primeiras formas de manifestação de um “pós-capitalismo” para o qual ainda não dispomos de categorias analíticas adequadas?

Seguimos com a resenha de LEOMIR HILÁRIO A crítica do valor à prova da atualidade, do livro “Poder mundial e dinheiro mundial” (Robert Kurz).

A revista fecha com Discruso da Paulista, comentado, no qual o discurso de Jair Bolsonaro é pontuado por comentários de Daniel Cunha.

Agradecemos a Caroline Nogueira, Diogo Carvalho, Germano Nogueira Prado, Luiz Philipe de Caux, Manoel Dourado Bastos e Vinícius Domingos por atenderem nosso chamado à tradução coletiva da entrevista de Postone.

 

Março de 2019.

[-] Sumário #13

Editorial

Entrevista com Moishe Postone, por Agon Hamza e Frank Ruda

A crise atual e o anacronismo do valor
Uma leitura marxiana
Moishe Postone

Desconstrução como crítica social
O pensamento de Derrida sobre Marx e a Nova Ordem Mundial
Moishe Postone

Constituição e destituição pelo trabalho
Observações sobre o tempo e a liberdade à margem da obra de Moishe Postone
Cláudio R. Duarte

A categoria trabalho abstrato e seu desenvolvimento histórico
Ernst Lohoff

A natureza na “contradição em processo”
Contribuição para o debate da teoria da crise
Daniel Cunha

O fim do “capitalismo verde”
André Villar Gomez e Maurílio Lima Botelho

A nova cruzada do fantasma autoritário brasileiro
O bolsonarismo como fantasia e conclusão lógica do golpe de 64
Rubem Klaus

Bolsonarismo e “capitalismo de fronteira”
Com adendo: comunidade e nacionalismo na era da crise do valor
Daniel Cunha

Ex-homens na fronteira literária latino-americana
Tradução e análise de “Las moscas”, de Horacio Quiroga
Cláudio R. Duarte

Para uma crítica dos afetos da crítica
Angústia, desamparo e mal-estar
Thiago Canettieri

Crise do capital e carisma apocalíptico
Daniel Cunha

Pós-capitalismo regressivo e “inércia conceitual”
Daniel Cunha

A crítica do valor à prova da atualidade
Resenha de Poder mundial e dinheiro mundial, Robert Kurz
Leomir Hilário

Discurso da Paulista, comentado
Daniel Cunha, sobre discurso de Jair Bolsonaro

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