Sinal de Menos #14, vol. 2

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Pouco mais de cinco meses após o lançamento do primeiro volume da Sinal de Menos 14, publicamos este segundo. No intervalo, mais 120 mil mortes por covid-19 foram notificadas no Brasil, alcançando a casa já dos 150 mil, e crescendo… Como numa marcha fúnebre inexorável – prefigurada pelas capas gêmeas de Felipe Drago – o fenômeno não só passa como  fenômeno “natural”, mas é cinicamente naturalizado pelos mercados e governos, que querem apenas o dinheiro circulando em seu curso normal. A revista segue na sua linha de formação crítica para a desnaturalização e o “fim dessa merda toda” (Marx). Gostaríamos de dedicar esta edição – em grande medida apoiada num dossiê longamente preparado sobre teorias críticas e dialéticas – à memória dessa massa brutalmente silenciada, e em particular às obras de Ruy Fausto e Marcos Müller, cuja partida nesse entretempo nos deixou intelectualmente mais pobres. 

Abrimos com uma ENTREVISTA que DETLEV CLAUSSEN concedeu a Jordi Maiso em 2009. Autor de uma biografia de Adorno (Ein letztes Genie, Frankfurt/M.: S. Fischer, 2003), com quem estudou nos anos 1960, o professor da Universidade de Hanôver partilha desde aquela época com Oskar Negt, de quem foi assistente, o intuito de desbravar novos caminhos para a teoria crítica da sociedade sem para tanto renunciar à radicalidade do pensamento dos principais protagonistas da assim chamada Escola de Frankfurt no esforço por desentranhar as potencialidades emancipatórias do presente e na medida do possível gorar a tendência à unidimensionalidade de um tempo sem qualquer profundidade histórica ou perspectiva de transformação. 

Em seguida, NUNO MACHADO esmiúça o conceito marxiano de trabalho e coloca em evidência os seus vários pontos de contacto com a dialética hegeliana em seu artigo Estranha forma de vida: o conceito marxiano de trabalho como universal concreto ou identidade-na-diferença. Em primeiro lugar, demonstra-se que o trabalho abstrato não é uma generalização mental, mas uma redução prática social. Em segundo lugar, evidencia-se que, embora o valor seja realizado somente no mercado, a sua determinação pelo tempo de trabalho significa que este é abstrato no momento da produção. Em terceiro lugar, os conceitos hegelianos de posição e pressuposição permitem provar que o trabalho abstrato é simultaneamente fisiológico e historicamente específico. Em quarto lugar, salienta-se que a categoria marxiana de trabalho é um universal concreto na acepção hegeliana do termo.

Também em relação ao trabalho, mas em seu aspecto histórico, DANIEL CUNHA, em A ascensão dos autômatos vorazes – a Revolução Industrial como imposição histórico-mundial de trabalho abstrato e extrativismo feralizado, partindo da proposição substancial e metodológica de Immanuel Wallerstein de que o sistema capitalista sempre evolui como totalidade, e não em subunidades nacionais, busca reconstruir a história da Revolução Industrial não como um processo britânico, mas histórico-mundial. Para tal, foca na mediação entre mecanização (centrada na Grã-Bretanha) e fronteiras de mercadorias dispersas na economia-mundo capitalista, dos Montes Urais ao Vale do Mississippi, da Cornualha à África Ocidental. O autor busca mostrar que a Revolução Industrial assim considerada foi uma colossal imposição de trabalho abstrato e extrativismo feralizado. Por seu turno, a resistência a essa imposição (rebeliões escravas, luditas, banditismo social etc.) também foi histórico-mundial, mas encontra-se invisibilizada na historiografia oficial devido às metodologias que reproduzem a ontologia do trabalho abstrato. A concepção de dialética implícita aqui deriva de Postone, Colletti e Adorno, como uma epistemologia historicamente específica da sociedade da mercadoria.

No próximo artigo, continuamos essa espécie de dossiê sobre a dialética primando pelo debate de posições teóricas entre dois extremos. No primeiro artigo, Sobre a Universalidade da Contradição e da Abstração Real: uma resposta hegeliana à redução marxista da dialética, THIAGO F. LION avança a tese de que nas últimas décadas se consolidou dentro do marxismo crítico uma forma de encarar a dialética como instrumento específico para a análise da forma-mercadoria e de seus desdobramentos, como dinheiro e capital. Segundo diversos autores tal especificidade se deve à “abstração real” que Marx descobriu em sua análise do valor, algo que seria totalmente diferente de outras abstrações, que se supõe terem seu lugar apenas no pensamento subjetivo. A proposta desse artigo é, a partir do resgate desse debate marxista, recolocar a questão do ponto de vista hegeliano. O que se apresenta então é que não apenas a contradição perpassa tudo, mas também que a existência de um abstrato efetivo, que domina a realidade, constitui o fundamento não apenas de formas sociais, mas também dos seres vivos em geral.

Em linha diversa, DANILO AUGUSTO DE O. COSTA, em Deleuze, Guattari e Marx – a crítica ao capitalismo como metafísica social, busca expor as linhas gerais da compreensão crítica de Deleuze e Guattari do capitalismo, tendo como base principalmente o livro O Anti-Édipo (1972), e de identificar a interpretação singular que os autores fazem de Marx, privilegiando os momentos da teoria de Marx que permitem, por um lado, formular uma crítica do capitalismo como metafísica social, desempenhando aí um papel central a categoria de fetichismo, e, por outro, elaborar uma psiquiatria materialista. Tal interpretação, operando deslocamentos em relação à teoria marxiana, está na base da elaboração pelos autores de um materialismo histórico-maquínico, utilizando um termo de Sibertin-Blanc, e permite colocar como central problemas políticos que passam por reflexões sobre a forma-Estado, a história de formações sociais, formas de organização e prática política. A partir dessa abordagem, e fazendo jus à afirmação dos autores segundo a qual “antes do ser, há a política”, o artigo busca nos afastar das leituras que privilegiam, em detrimento das contribuições de Guattari, as especulações ontológicas de Deleuze, da sua concepção do ser e, portanto, da natureza, como produzido praticamente num campo imanente de forças materiais intensivas e em constante diferenciação.

Em Contragolpes da dialética – notas difusas sobre viragens dialéticas em Hegel, Marx e Adorno, CLÁUDIO R. DUARTE recupera o tópico hegeliano do Gegenstoß (contragolpe, contrachoque, autorrepulsão, repelir-se de si, rebote, freagem interior etc.) como o cerne da teoria das negações dialéticas, contendo a designação dos pontos de inversão, virada, superação ou colapso, que para o autor seriam o “cerne racional” da dialética e o “núcleo temporal” de sua verdade. Se há movimentos no ser, nem todo movimento poderia ser descrito como “dialético”. Se a dialética da sociedade burguesa é ontologizada por Hegel, ele mesmo conhece limites à aplicação de esquemas de uma reflexividade dialética à natureza. Se em Hegel, assim, o contragolpe jaz no coração metafísico da essência e perfaz a resistência do conceito, assegurando a força do método especulativo contra toda razão subjetiva e contingente, em Marx e Adorno ele é tanto uma forma de apresentar as contradições objetivas do capital quanto a resistência do objeto social a suas identificações, ou do que há de objetivo no “sujeito” (pressuposto) e o que há de anacrônico no predomínio desse objeto (posto) como “sujeito automático” ou automovimento do dinheiro. Aqui o contragolpe seria ao mesmo tempo um freio à dialética desse sistema ofuscante e um impulso negativo (para) fora do jogo, que o faz retornar a seu fundamento irracional, levando-o ao seu ponto de colapso. Nos seus pontos de virada mais altos, a atualização do conceito, a superação do trabalho e a questão da liberdade são os temas que trespassam os três mestres da dialética.

Desde os anos 1980, não foram poucas as tentativas de aproximação entre as teorias francesas genericamente designadas como pós-estruturalistas e a crítica dialética de cepa frankfurtiana. Em A sereia e o desavisado – Ideologia Francesa, crítica dialética e a “matéria brasileira”, RAPHAEL F. ALVARENGA procura retomar o problema de sua articulação numa das feições que recentemente assumiu entre nós. Além do risco de positivação da “má infinidade” brasileira embutido na paixão parisiense da dissolução, está em jogo a compreensão adequada dos sentidos da crítica dialética num país periférico, a capacidade de se sopesar o influxo e a gravitação das ideias e formas estrangeiras numa sociedade de cultura reflexa, a possibilidade, enfim, de verificar criticamente a pretensa universalidade de teorias e categorias hegemônicas do momento à luz da experiência cultural acumulada sobre o fundo da modernização retardatária brasileira. 

Em Sobre a matriz fantasmal e o espetáculo – ser em tempo, homem sem mundo, SERGIO RICARDO OLIVEIRA intenta delinear algo do indivíduo abstrato atual ou espetacular que, afinal, reserva forças de superação, assim como dessas se entrevê sua própria destruição no horizonte das relações mediadas também abstratamente. Debord teria lido Anders? Parece que sim. Reinante pois é a temporalidade esquizofrênica a que a humanidade está fadada, e o que de mais pudesse implicar mudanças históricas que vêm acompanhando essa condição “espacializante” (Gabel). Para além de qualquer retorno a uma tipologia clássica das lutas sociais, os autores em voga atentam para o terreno do tempo e seus graus existenciais vividos, possíveis e “impossíveis” como para mostrar portais de criação de ambiências. Paralelo aos inícios do espetáculo integrado havia apenas focos de ideologia não materializada, ao mesmo tempo que as aparições dos tais portais perenes de futuro. Uma vez que o atualmente existente é em maior expressão tempo abstrato reconduzido, seria a criação de algo distinto da mera “liberação do tempo” o que se traçaria no além dos velhos tempos relativísticos e, consequentemente, na direção de um agregado de fluxo vital ainda sem nome e sem conceito relacionado concretamente fundado.

O próximo texto é Hipótese de definhamento da forma jurídica (e o atual capítulo brasileiro de seu processo), de LUIZ PHILIPE DE CAUX. O ensaio é composto de duas partes. Na primeira, é formulada a relação entre a forma jurídica e a forma-valor em Marx e Pachukanis para, a seguir, especular-se sobre a o processo de desenvolvimento dessa relação no último século. Esse processo é entendido como o da progressiva perda da efetividade do fetiche de autonomia do campo jurídico, isto é, sua autonomia ilusória, porém até o fim do século XIX algo fenomenicamente real e estruturante. Na segunda parte, tenta-se interpretar certos desenvolvimentos recentes da história brasileira como um processo no qual frações da classe capitalista que operam à margem do direito têm enfrentado e desbancado suas respectivas frações setoriais concorrentes que precisam do direito para tentar levar adiante a acumulação. Esses desenvolvimentos brasileiros são então pensados como possível capítulo do processo de debilitação da forma jurídica apresentado em primeiro lugar.

Em Direito e sociedade – a ação política no pensamento de Herbert Marcuse, ANDRÉ LUIZ B. SILVA tenta retirar o pensamento do pensador alemão do ostracismo – este provocado, talvez, por algumas recepções que teve sua obra –, resgatando o potencial crítico de sua filosofia. Nesta excursão, rememoram-se várias questões que sua reflexão filosófica nos legou, principalmente a importância de compreender a noção de ação política para uma efetiva transformação da realidade social. Apresenta o filósofo frankfurtiano como um verdadeiro crítico da sociedade produtora de mercadorias, mostrando que suas reflexões não perderam atualidade, muito pelo contrário. Tomando emprestadas as palavras de Paulo Arantes em “Recordações da recepção brasileira de Herbert Marcuse”: “salvo no dia em que se descobrir que o futuro já chegou e é isso mesmo que estamos vendo, desintegração social impulsionada pelo programa suicida da economia mundializada (…) que Marcuse será finalmente compreendido na sua verdadeira dimensão”. Ou seja, no momento atual, “onde o tempo continua sendo de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, Marcuse parece essencial para desvelarmos alguns segredos dessa sociedade mística que de maneira brutal, lutando por sua reprodução, assinala o fim da humanidade.

Escrito nos anos 1930, O ponto fulcral é um fragmento de THEODOR W. ADORNO publicado a título póstumo na Alemanha e inédito em tradução. Embora alguns tenham visto nele o indício de certo “leninismo”, para nós ele exemplifica antes um materialismo necessariamente ligado à análise concreta de situações concretas, o que segundo o próprio Lênin seria um traço característico do pensamento dialético de Marx.

A tradução de Sérgio Oliveira do painel de ANDREI S. MARKOVITS, SEYLA BENHABIB e MOISHE POSTONE sobre a peça de teatro O lixo, a cidade e a morte de Fassbinder é um chamariz para uma caracterização do antissemitismo moderno, marcado dentre outros pelo argumento mitológico de que a destruição dos povos judeus equivaleria à própria destruição do “reino do mal”. A peça eivada de sinais explícitos e silenciamentos provenientes daquele argumento chama a atenção de como esta estética acaba sendo um aliado indispensável para a teorização social do vigente e do axiomático, e suas antecipações. A tradução procurou respeitar ao máximo os traços estilísticos dos autores (na dialética de não descuidar de um estilo não tão poético ou profético no vernáculo), o que poderia por vezes facilitar ou não as discussões futuras referidas no antissemitismo.

Em Dialética aberta ou negação determinada? Discussão da dialética nos “Seminários da Escola de Frankfurt”, ALESSANDRO BELLAN estuda momentos da gênese da concepção de dialética em Adorno e Horkheimer no final dos anos trinta a partir dos protocolos de discussão de ambos em torno do que viria a ser a Dialética do esclarecimento. Enquanto Horkheimer estaria mais próximo de uma “dialética aberta” de matriz kantiana, que trabalha a mediação constitutiva da factualidade como derivação a partir de uma essência, que não mais se fecha numa totalidade, em Adorno teríamos o privilégio de uma “historicidade radical” através da “negação determinada”, que, ao negar todo princípio primeiro, põe o foco na não-identidade entre essência e aparência, na “dissolução da aparência” enquanto “dissolução daquelas condições que impedem o aparecer efetivo do próprio fato, daquela aparência que impede que a própria aparência seja revelada como tal.” Alessandro Bellan é um professor italiano especialista em teoria crítica. Aqui publicamos com pequenos ajustes uma tradução já antiga feita por Cláudio R. Duarte, especialmente lembrada para dialogar com nosso dossiê sobre a teoria dialética.

Finalmente, Thiago F. Lion traduz do original em alemão o texto de ALFRED SOHN-RETHEL, até então inédito em língua portuguesa, O ideal da gambiarra – sobre a técnica napolitana. O texto de 1926 trata da apropriação dos objetos tecnológicos pelo povo de Nápoles – no então subdesenvolvido sul da Itália – em sua forma não intacta, isto é, como designado em português pelo vocábulo “gambiarra”. Além de ter exercido verdadeiro fascínio em filósofos contemporâneos como Giorgio Agamben – que chega a chamar a descrição de Nápoles por Sohn-Rethel de “estupenda” – o texto foi escrito em sua juventude, época de intenso convívio com pensadores que depois seriam parte da Escola de Frankfurt, como Theodor W. Adorno e  Walter Benjamin.

Outubro de 2020.

Sumário #14, vol. 2

Editorial

Entrevista

Teoria Crítica e experiência viva
Detlev Claussen

Artigos

Estranha forma de vida
O conceito marxiano de trabalho como universal concreto ou identidade-na-diferença
Nuno Miguel Cardoso Machado

A ascensão dos autômatos vorazes
A Revolução Industrial como imposição histórico-mundial de trabalho abstrato e extrativismo feralizado
Daniel Cunha

Sobre a universalidade da abstração e da contradição real
Uma resposta hegeliana à redução marxista de dialética
Thiago F. Lion

Deleuze, Guattari e Marx
A crítica ao capitalismo como metafísica social
Danilo Augusto de O. Costa

Contragolpes da dialética
Notas difusas sobre viragens dialéticas em Hegel, Marx e Adorno
Cláudio R. Duarte

A sereia e o desavisado
Ideologia Francesa, crítica dialética e “matéria brasileira”
Raphael F. Alvarenga

Sobre a matriz fantasmal e o espetáculo
Ser sem tempo, homem sem mundo
Sergio Ricardo Oliveira

Hipótese de definhamento da forma jurídica
(e o atual capítulo brasileiro do seu processo)
Luiz Philipe de Caux

Direito e Sociedade
A ação política no pensamento de Herbert Marcuse
André Luiz B. Silva e Camilo Onoda Caldas

Traduções

O ponto fulcral
Theodor W. Adorno

O lixo, a cidade e a morte de Rainer Werner Fassbinder
Novos antagonismos na complexa reação entre judeus e alemães na República Federal Alemã

Dialética aberta ou negação determinada?
Discussão sobre a dialética nos “Seminários da Escola de Frankfurt”
Alessandro Bellan

O ideal da gambiarra
Sobre a técnica napolitana
Alfred Sohn-Rethel

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