Sobre a Sinal de Menos

Que o mundo atual apareça cada vez menos sob os trajes da positividade e do otimismo satisfeitos, parece haver poucas dúvidas. Tornou-se um fato banal a grande mídia relatar, em pânico aberto ou simulado, a explosão de crises sociais e ambientais de grande magnitude. O espectro da catástrofe ronda o planeta, abafado cotidianamente pela velha política de entretenimento de massas e administração das crises, em meio ao fracasso e ao terror social generalizados. Quanto mais o capitalismo se afirma vencedor, como a única alternativa de produção e vida, mais o desastre social e ambiental, a um certo prazo difícil de julgar, parece-nos inevitável.
 
Se o travo amargo do negativo se projeta sobre o todo, para nós não se trata de atenuá-lo, mas sim de aguçá-lo, com a maior contundência possível. Pois as crises que se desencadeiam não são garantia alguma de superação social, tornando-se antes motivo para reflexão sobre as formas de converter tal negatividade cega em algo realmente negativo e superador. Uma revista que nasce sob o signo da recusa – da potência do não, em vistas à criação social do novo – necessariamente se esforça por determinar e especificar aquilo que pretende negar. Não se trata de forma alguma de niilismo, reação desparafusada, desespero existencial, irracionalismo – formas abstratas de recusa pela recusa ou voluntarismo cego, feitos de um ponto de vista meramente subjetivo, individual ou grupal. Inserimo-nos, assim, no esforço coletivo de elaboração de uma crítica consequente das mediações sociais que nos afetam e nos dominam, em seus vários níveis e escalas. Alinhamo-nos à tradição de pensar e organizar uma formação cultural crítica, que necessariamente passe pela autorreflexão individual, sem a qual, queremos crer, não há nenhuma práxis realmente emancipatória.
 
Trata-se de mirar e atacar as estruturas fundamentais da sociedade capitalista, bem como seus momentos constitutivos e reprodutivos em suas particularidades concretas. Sinal de Menos pretende, pois, dar voz à perspectiva mediadora entre os problemas gerais e particulares, movendo-se continuamente das questões econômico-sociais mais urgentes aos movimentos de oposição, dos processos de urbanização capitalista às formas políticas e estatais, da formação social e cultural às formas de sujeito e subjetivação, das elaborações teóricas num plano mais geral à literatura e às artes. Se é correto afirmar que vemos o mundo sempre de um certo ponto de vista – no caso, da periferia do capitalismo, como seres sujeitos à loucura da valorização do capital –, talvez tenhamos, por assim dizer, ao menos alguma “vantagem” nesse ponto: pois não será aqui o lugar onde a crise mundial se manifesta em toda sua força, como revelação cabal e mesmo adiantada da fratura exposta da socialização capitalista global?
 
Nessa linha há bons antecedentes. No Brasil, pode-se dizer que a grande descoberta do país iniciou-se menos com as ciências sociais que com a literatura: depois de uma lenta acumulação literária, Machado de Assis despontou, em plataforma periférica, como um grande farol, ainda hoje fazendo-nos ver as faces tenebrosas de uma sociedade em que as heranças coloniais da dominação direta – escravismo, patriarcalismo, clientelismo – se entrelaçam às estruturas de dominação capitalista mais modernas. Aqui, as regulações coisificadas do capital se combinam ao mandonismo e ao capricho de uma elite cínicoesclarecida, fermentando uma cultura envenenada, de afirmação e sobrevivência selvagens, que hoje trespassa todos os estratos sociais, reproduzindo uma sociedade estilhaçada e só muito precariamente unificada – nem por isso menos moderna e capitalista, muito pelo contrário. Nosso complexo particular de problemas dá sinais ao mundo, na crise em que há muito estamos, de que o automatismo cego e destrutivo do sistema tende a ser suportado – não sem contradições – por formas subjetivas distintas do sujeito burguês europeu clássico, que hoje vão se generalizando pelo mundo todo. A grande literatura, nesse caso, longe de ser mera ideologia, detinha chaves de alguns de nossos enigmas sociais contemporâneos.

A Revista aposta então suas fichas no pensamento de que a totalidade deve se realizar dialeticamente em cada problema particular enfocado, sem privilégio de algum campo de análise. Da mesma maneira, se hoje vem se falando em “brasilianização do mundo”, em geral de forma apologética, provavelmente estaremos num posto relevante para a observação crítica, adrede preparado por nossa tradição. Nesse sentido da formação, a revista segue sua linha, traçando com rigor e também certo jogo e desvio para com as regras oficiais do mundo universitário, degradado pelo mercado e pela cultura do favor, a figura composta pelos enigmas sociais. Um outro mestre em tais enigmas, Drummond, em seu “não-estar-estando” na vida danificada, concluía assim seu “Poema-orelha”:

“e a poesia mais rica, é um sinal de menos.”

 (do editorial de Sinal de Menos #1)

 ***

A revista aceita contribuições e comentários críticos, que serão avaliados quanto ao conteúdo, estilo e adequação à linha editorial. Os artigos devem ser enviados para dcunha77@hotmail.com .

***

Editores

Cláudio R. Duarte (São Paulo)

Daniel Cunha (Porto Alegre)

Felipe Drago (Porto Alegre)

Joelton Nascimento (Cuiabá)

Raphael F. Alvarenga (São Paulo)

Rodrigo Campos Castro (São Paulo)

 

7 Comentários

  1. No mundo de hoje assistimos perplexos a uma retomada do ideario liberal sem a existência de um capitalismo que ofereça a menor condição de realização de tais idéias. Trata-se de uma farsa, um engodo cada vez mais homogêneo que carece ser desmascarado com maior veemência.
    Livre concorrência, iniciativa, etc. há muito foram extintas, desde a entrada do capitalismo em sua fase império-monopolista – (que o diga Lênin) !

    Neste horizonte, os poetas, pobres poetas,… tendem a identificar a criação literária à uma experiência estético-mercadológica.

    Maria Rodrigues

  2. Caros editores:
    Gostaria muitíssimo de ler a entrevista de J. Antonio Pasta, e de sua revista n0. 4. Como faço para ter acesso a ela? Sou doutoranda na ECA-USP e estudo os arquétipos da brasilidade e encontro pouquíssimas referências interessantes sobre esse tema.
    Att.
    Tamara

    • Prezada Tamara,
      Você pode baixar a revista neste blog. No post sobre a revista correpondente, clique no link “Baixar a revista inteira”. Será aberta outra janela (zumodrive) – clique no link desta nova janela para baixar.
      Att.
      Daniel

  3. Nesse ínterim estamos como o sinal de menos, nos agarrando ao mundo que é a transcendência do sinal de menos.
    Muito bom ter lido o texto

  4. Prezados: Favor me informar se a sua revista é publicada só eletronicamente ou também em papel?

  5. Prezados: Favor me informar se a sua revista é publicada só eletronicamente ou também em papel?
    Gostaria de receber em papel se possível

  6. Escrevo escrita quem nem seja nesse presente tenebroso de mudanças.


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • ISSN

    1984-8730
  • Insira o seu email e clique para receber notificações de novos artigos por email.

    Junte-se a 129 outros seguidores

  • Comunidades e grupos

  • Contato

    dcunha77@hotmail.com