Sinal de Menos #Especial

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Caros leitores,

Esta edição extra de Sinal de Menos se dedica a pensar as recentes Jornadas de Junho. A composição da capa em forma de mosaico, elaborada por Felipe Drago, sinaliza os sentidos das Jornadas. Realmente elas surpreenderam a todos. O que parecia estagnado de repente se desencantou e se descongelou numa série de mobilizações e contramobilizações, que convidam à reflexão e ao desvendamento crítico.

Muito já se falou e se escreveu sobre as Jornadas, embora às vezes sem muito recuo histórico (inevitável, é verdade) e analítico-conceitual. Aqui, então, como sempre num esforço de esclarecimento social, o que importa é o empenho em distinguir o que une um determinado campo de lutas contraposto ao capital, ao poder excepcional cada vez mais em vigor e à grande mídia. Mas não só o que une, também o que separa e obriga à crítica das aparências e das ideologias da adesão, do agito e do movimento, que apenas terminam levando ao espontaneísmo e ao populismo.

Por outro lado, a essência subjaz à aparência e frequentemente esta última é mais rica do que a essência. Eis o que valoriza o registro fenomenológico do movimento em curso, com seus sentidos ambivalentes e contraditórios. Quanto mais rico e plural esse registro mais ele permitirá embasar uma crítica totalizante. Sem essa multiplicação de perspectivas, digamos, transversal – das grandes estruturas ao puro caos das ruas –, nada pode ser analisado mais a fundo. Os textos coletados na edição tentaram contemplar essa dialética entre aparência e essência e os múltiplos sentidos da revolta. Por isso ainda, reunimos tomadas de posição a partir de centros geográficos variados: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Cuiabá.

A revista abre com uma entrevista – Os sentidos da revolta – que os editores da Sinal de Menos deram a Roger Behrens, e que foi publicada parcialmente nos círculos alemães e dinamarqueses de crítica do valor e do capital (Jungle World e Autonom Infoservice, com previsão de publicação em outros meios alemães).

O primeiro artigo publicado a seguir fornece uma caracterização do Passe Livre e do Bloco de Luta pelo Transporte Público em Porto Alegre, que acreditamos ter sido uma das melhores concretizações dos protestos de Junho. Em Resistência e o direito à cidade, DANIEL CUNHA explica o contexto no qual o movimento se desenvolveu em Porto Alegre, mostrando que ele se imbrica em um mosaico mais amplo de lutas urbanas pelo direito à cidade que questiona o modelo urbanístico e o consenso político estabelecidos.

Em seguida, vem o texto de JOELTON NASCIMENTO, O colapso do arranjo brasileiro, sobre o (des)arranjo brasileiro entre empresariado e Estado, que segundo ele, é o ponto arquimediano que une todas as múltiplas reivindicações feitas durante as jornadas, apontando ainda o paradigma de movimento social resultante do conflito.

O terceiro artigo, de CLÁUDIO R. DUARTE – O Gigante que acordou – ou o que resta da Ditadura? – busca apresentar as tensões entre o tal Gigante e o que ele provavelmente representa em termos sociais e subjetivos. O paradoxo é que se a crise da representação se instalou em Junho o que em grande parte desfilou nas ruas, para além do MPL, foi uma mera representação espetacular, um simulacro com potenciais perigosos, no limite protofascistas, e que nos levam apenas ao que resta da ditadura, a começar pela repressão militar, a mídia golpista e a onda reacionária.

O quarto artigo – A revolta e seu duplo –, de PAULO MARQUES, vai um pouco no mesmo sentido do artigo anterior, captando ricos detalhes e nuances das mobilizações. Ele busca destrinchar e identificar suas causas dentro do processo de crise capitalista e da onda de lutas sociais internacional. Procura também entendê-las como lutas sobre o valor da força de trabalho e analisa o seu duplo caráter: por um lado ligado às demandas concretas, por outro, a sua recuperação capitalista em forma de pseudorrevoltas espetaculares e conservadoras. Por fim aponta os desafios para o futuro.

Em seguida, temos dois textos que caminham pelo fio da experiência empírica das manifestações. Em Duas visões do movimento – PSOL e Frente Autônoma, SUELEM FREITAS relata duas maneiras de organizar a luta em Porto Alegre: a primeira através do partido de esquerda mais ou menos tradicional, a outra por meio de uma experiência autonomista.

Já em A comédia da moral pacífica, ANDRÉ GUERRA reflete, de maneira quase narrativa e num viés mais ou menos deleuziano, a respeito do caos e da violência que tomaram as ruas em certos momentos mais explosivos das manifestações, pensandosuas implicações para a moral normatizada do homem burguês cotidiano.

Na sequência temos um texto numa linha marxista-leninista tradicional, com DIEGO GROSSI, em seu Decifra-me ou devoro-te: as jornadas de junho/julho e a luta de classes no Brasil contemporâneo, tecendo boas considerações sobre o ciberativismo, apontando como o espontaneísmo das massas surpreendeu os agentes históricos tradicionais da esquerda. O que demonstra a necessidade desses agentes inovarem não só suas políticas, mas também os métodos de ação para que se coloquem à altura dos desafios da luta de classes no século XXI, sem, no entanto, abdicarem das ricas contribuições herdadas do passado.

Para fechar, em A mobilidade do inferno proletário: a vida nos trens da hiperperiferia de São Paulo, CLÁUDIO R. DUARTE narra a vida do proletariado urbano usurpada pelo tempo de transporte nos trens suburbanos da Grande São Paulo. Ele apresenta um pouco do mal-estar social geral que veio a furo com as Jornadas de Junho.

Boa leitura e até a próxima edição.

Agosto de 2013

[-] Sumário #Especial

Editorial

Entrevista

Os sentidos da revolta
com Sinal de Menos, por Roger Behrens

Artigos

Resistência e direito à cidade
Esboço de uma gênese do movimento em Porto Alegre
Daniel Cunha

O colapso do arranjo brasileiro
Joelton Nascimento

O gigante que acordou – ou o que resta da ditadura?
Protofascismo, a doença senil do conservadorismo
Cláudio R. Duarte

A revolta e seu duplo
Entre a revolta e o espetáculo
Paulo Marques

Visões do movimento – PSOL e Frente Autônoma
Impressões de Porto Alegre
Suelem Freitas

A comédia da moral pacífica
André Guerra

Decifra-me ou devoro-te
As jornadas de junho/julho e a luta de classes no Brasil contemporâneo
Diego Grossi

A mobilidade do inferno proletário
A vida nos trens da hiperperiferia de São Paulo
Cláudio R. Duarte

 

Sinal de Menos #9

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Caros leitores,

Chegamos à nona edição de nossa revista, de longe a mais volumosa que já lançamos. Infelizmente, porém, começamos com a nota triste do falecimento de Robert Kurz, em julho de 2012. A sua importância para nossos editores e colaboradores pode ser constatada pelas inúmeras referências e citações contidas tanto nesta edição quanto nas anteriores, isto quando a obra de Kurz não é o próprio tema discutido. Para nós, a sua obra retoma com força a crítica da economia política de Marx, centrando-a na crise do valor/cisão de gêneros e na possibilidade da desnaturalização das formas sociais. E isso, que não é pouco, exatamente quando vivemos uma crise do pensamento crítico, atacado pela superficialidade sociológica e culturalista – uma crise que é também, contudo, uma espécie de crise do campo das forças em luta. A nota positiva da edição é a expressiva colaboração de Marcos Barreira, com dois textos e duas traduções publicados, além dos textos enviados por companheiros e novos colaboradores (Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, Natasha B. Palmeira, Nuno Machado, Eraldo Santos e Marcelo Mari).

Esta edição da revista vem com a marca do seu tempo, como mostra a capa de Felipe Drago, utilizando fotografia de Y. Karahalis: a crise do capital e seus desdobramentos – econômicos, teóricos, urbanísticos, ideológicos, ecológicos e estéticos. Abrimos a revista com uma entrevista com Ernst Lohoff e Norbert Trenkle, do Grupo Krisis, publicada na revista alemã Telepolis. A entrevista foca a crise do capitalismo e sua perspectiva histórica. Para isto, os autores buscam os fundamentos marxianos da crítica da economia política e da teoria da crise.

“Entre ruína e desespero”, de Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga, aborda o tratamento dado ao conceito de sujeito em Slavoj Žižek e em Robert Kurz. Sem visar a uma síntese entre as duas posições, radicalmente opostas, os autores procuram jogar um contra o outro a fim de revelar as unilateralidades e os passos em falso no campo da constituição da luta para uma negação concreta da sociedade das mercadorias.

Os dois textos seguintes, de Marcos Barreira“O Exército nas ruas” (este em co-autoria com Maurílio Lima Botelho) e “Cidade Olímpica” – buscam conceituar a violência urbana na cidade do Rio de Janeiro no quadro de nossa modernização retardatária e do movimento do capitalismo global. Episódios como a repressão à greve da CSN fornecem chaves para a compreensão das atuais “Unidades de Polícia Pacificadora” no contexto da preparação da cidade para as Olimpíadas.

A seguir, Daniel Cunha, em “A todo vapor rumo à catástrofe?”, mostra que as emissões de carbono aumentaram significativamente nos últimos anos, intensificando as chances de um aquecimento global catastrófico. O autor analisa as causas do fenômeno com base na dinâmica do capitalismo, desde a Revolução Industrial. Na sequência, em “As sutilezas metafísicas do negacionismo climático”, faz a crítica de uma tese de doutorado da USP que busca negar a teoria do aquecimento global a partir de uma posição esquerdista.

“O Dinheiro do Espírito e o Deus das Mercadorias”, de Nuno Machado, enfoca o tema da abstração real em Alfred Sohn-Rethel. O autor revisa os conceitos do pensador e os confronta com as posições da crítica do valor, especialmente dos grupos Krisis e Exit! e de Moishe Postone.

Em “Lukács – a Ontologia da miséria e a miséria da Ontologia”, Cláudio R. Duarte apresenta uma crítica imanente à Ontologia do ser social do último Lukács, recém publicada no Brasil, mostrando que a sua pedra angular é nada mais – e nada menos – do que a miséria do valor e do trabalho, como bases da esfera separada da economia moderna, o fundamento “ontológico” em ruína avançada no capitalismo especulativo global.

Em seguida, uma participação especialíssima: o texto pouco conhecido, redigido em 1962 por Guy Debord, Attila Kotànyi e Raoul Vaneigem, das “Teses sobre a Comuna de Paris”, aqui em tradução de Raphael F. Alvarenga. Elas vêm a calhar num momento em que aquele episódio determinante do movimento operário clássico não figura mais nos currículos de História na França – o que nos faz pensar que se a situação de conflito social sistêmico engrossar, coisas reacionárias desse tipo podem ocorrer nessa e noutras partes.

Na sequência e até o final da revista, temos um feixe de textos em torno da arte moderna e contemporânea. Primeiramente, vão publicados dois textos de Anselm Jappe traduzidos por Marcos Barreira. Em “Crítica social ou niilismo?”, Jappe percorre a história do pensamento radical e da negação e inverte a acusação habitual, argumentando que niilista, na verdade, é a sociedade moderna. Em “Terão os situacionistas sido a última vanguarda?”, o autor coloca em perspectiva a ascensão e declínio das vanguardas artísticas, a fim de determiná-las historicamente.

“Extratos de Pollock, ou, pintura e trabalho abstrato”, de Cláudio R. Duarte, trata da mediação do trabalho abstrato contida na action painting de Jackson Pollock, como o seu ponto cego central. O pintor tanto sofre como expõe o trabalho abstrato como um ritual vazio absurdo. Ao mesmo tempo, faz ver o sentido da posição da negação, enquanto expressão e posição do sujeito, na dialética objetivada de sua forma.

Eraldo Santos, em seu texto “Tímida sim, mas um tantinho desrecalcada”, discute um texto do grande crítico Rodrigo Naves sobre o pintor Alberto da Veiga Guignard. Na esteira de Naves, suas análises buscam conceituar a forma da pintura de Guignard, que contém em si a dialética da inserção da sociedade brasileira no capitalismo global, e que apontava para um projeto diferente de modernidade artística.

O próximo ensaio – “Rodrigo Naves e as dificuldades da formação”, de Cláudio R. Duarte, retoma e amplia um pouco mais essa mesma problemática bem apresentada por Eraldo. Ele enfoca a potência crítica de Rodrigo Naves e de seu mapeamento do estado atual das artes plásticas no país e no mundo totalmente mercantilizado. Num segundo tempo, busca criar, por meio das categorias de Naves, os termos de uma comparação entre Guignard e Machado de Assis, tomando-os como duas respostas críticas ao Brasil e a esse mundo que então ainda se formava. O termo mediador da comparação é a imposição de uma modernização conservadora, que se dificulta o nosso regime de forma não impede de o país “se formar” negativamente por meio da forma-mercadoria, dificultando ou impossibilitando ilusões de meras reformas de superfície.

Comentário crítico de uma adaptação regressiva de uma peça de Bertolt Brecht, o texto seguinte, “Adesão e desbunde”, de Raphael F. Alvarenga e Natasha B. Palmeira, discute a banalização e os abusos das teorias do dramaturgo alemão em montagens atuais, nas quais a falta de dialética, a incapacidade de historicizar e a preocupação em oferecer ao espectador vivências extraordinárias obnubilam o fato que em obras de arte dignas do nome os meios formais não são mero fruto do acaso.

Marcelo Mari, em “Ideologia, comunicação e visualidade – o sistema artístico detectado”, trata da história da crítica de arte moderna e pós-moderna, a partir dos desdobramentos inscritos na mudança de concepção e de organização das instituições artísticas (museus, bienais, mostras etc.) no Brasil e no mundo. O texto aponta que o fim da arte é apenas o início de sua mercantilização e institucionalização integrais.

“Os devotos do Santo Anônimo” é uma resenha do romance de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, intitulado as visitas que hoje estamos, lançado em 2012. O romance tem uma densidade literária singular, pois consegue, numa espécie de tour de force, unificar em vários registros as duas formas sociais do fetichismo (o religioso e o monetário-capitalista) do mundo “caipira” brasileiro, hoje em estado de petição de miséria, por isso mesmo, petição de uma vida além da miséria.

A revista termina com a publicação de três fragmentos selecionados desse romance de Antonio Geraldo: “a hora certa”, “a lição” e “com espírito”. Agradecemos muito a sua colaboração para a resenha e a publicação destes textos.

A revista continua aberta às contribuições – principalmente quando alimentam as dissonâncias, geradoras dos autênticos debates. Assim o esperamos. Até o próximo número!

 

Janeiro de 2013

[-] Sumário #9

Editorial

Entrevista

Crise mundial e limites do capital
com Ernst Lohoff e Norbert Trenkle

Artigos

Entre ruína e desespero
Negação e constituição do sujeito em Robert Kurz e Slavoj Zizek
Cláudio R. Duarte e Raphael F. Alvarenga

O Exército nas ruas
Da operação Rio à ocupação do Complexo do Alemão.
Notas para a uma reconstituição da exceção urbana

Marcos Barreira e Maurílio Lima Botelho

Cidade Olímpica
Sobre o nexo entre reestruturação urbana e violência na cidade do Rio de Janeiro
Marcos Barreira

A todo vapor rumo à catástrofe?
O capital e a dinâmica do aquecimento global
Daniel Cunha

As sutilezas metafísicas do negacionismo climático
Como a esquerda tradicional adere à ideologia negacionista
Daniel Cunha

Lukács
A Ontologia da miséria e a miséria da Ontologia
Cláudio R. Duarte

O dinheiro do espírito e o deus das mercadorias
A abstracção real segundo Sohn-Rethel
Nuno Miguel Cardoso Machado

Teses sobre a Comuna de Paris
Guy Debord, Attila Kotànyi e Raoul Vaneigem

Crítica social ou niilismo?
O “trabalho do negativo”: de Hegel e Leopardi até o presente
Anselm Jappe

Terão os situacionistas sido a última vanguarda?
Anselm Jappe

Extratos de Pollock
ou, Pintura e trabalho abstrato
Cláudio R. Duarte

Tímida sim, mas um tantinho desrecalcada
Ainda um exercício em torno da matéria de Naves e Guignard
Eraldo Santos

Rodrigo Naves e as dificuldades da formação
Naves, Guignard e a crítica das formas modernas
Cláudio R. Duarte

Adesão e desbunde
Os êxtases sórdidos de um Brecht às avessas
Raphael F. Alvarenga e Natasha B. Palmeira

Ideologia, comunicação e visualidade
O sistema artístico detectado
Marcelo Mari

Os devotos do Santo Anônimo
Sobre “as visitas que hoje estamos”
Cláudio R. Duarte

Três Fragmentos
“a hora certa”, “a lição” e “com espírito”
Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira

(2a. ed. revisada)

Sinal de Menos #8

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Chegamos à oitava edição de nossa Sinal de Menos, que tem capa de Felipe Drago. Aqui temos, pela primeira vez, contribuições vindas de Portugal: a fotografia da capa, obra de Paulo Martins inspirada no editorial da Sinal de Menos #1, e duas traduções de Moishe Postone, de autoria de Nuno Machado. Postone é professor na Universidade de Chicago, um dos pioneiros da chamada “crítica do valor”, com pouquíssimo material traduzido para a língua portuguesa.

Abrimos a revista com a entrevista de Postone, originalmente concedida à revista inglesa Solidarity, onde se discute a relação da esquerda com o antissemitismo. Em seguida, Postone, em seu “Antissemitismo e nacional-socialismo” – um ensaio de referência mundial nos estudos sobre o tema, mas ainda inédito em português -, trata de buscar as chaves da relação imanente específica entre estes dois fenômenos e o fundamento social moderno da forma-mercadoria e do trabalho abstrato.

Os três textos seguintes têm como fio condutor comum o sentido da urgência da mudança histórica, representado pela referência ao Walter Benjamin das “Teses sobre o conceito de história”. O texto de Daniel Cunha, “O Antropoceno como alienação: crítica da economia política do aquecimento global”, conceitua a destrutividade do capitalismo a partir da lógica da mercadoria, e mostra como o metabolismo social falho com a natureza resulta na globalização da poluição. Procura demonstrar, ainda, como esta globalização da poluição escancara o fetichismo e a irracionalidade do sistema capitalista em diferentes aspectos da vida social, que se estendem dos modelos matemáticos da mudança climática às campanhas publicitárias que fazem referência à catástrofe ambiental, passando pelos processos tecnológicos.

Em “O capitalismo como estado de exceção permanente”, Cláudio R. Duarte propõe uma reflexão sobre o conceito de estado de exceção como a norma do capitalismo administrado contemporâneo. Para isso lança novas perspectivas sobre a ideia de “mundo totalmente administrado” dos frankfurtianos e busca, a partir de Marx, desdobrar dialeticamente a lógica do estado de exceção da própria lógica do Capital, enquanto produção “desmedida” e “sem limites” de mais-valia. Por fim, o autor experimenta tecer mediações entre o capitalismo como “perversão objetiva” e as variantes-tipo de sujeito moderno “fora da norma”, partindo do funcionamento perverso e/ou psicótico da Lei e do Supereu no mundo administrado, o qual inverte a Lei em uma injunção superegoica de gozo ilimitado, reduzindo os sujeitos a instrumentos de gozo do Outro; um traço fundamental que a literatura de Kafka, Machado de Assis e Alejo Carpentier permitiram ler ao longo do século XX.

Fechamos a seção de artigos com o texto de Raphael F. Alvarenga, “Severas alegrias da lógica: Brecht, didatismo e dialética”, que mostra como, a partir de peças didáticas, o dramaturgo alemão procurou dotar de determinação objetiva a potência negadora contida de forma indeterminada no niilismo das peças da juventude, reorganizando-a no interior de uma reflexão estética mais consequente, ligada à luta anticapitalista. A força e o interesse de sua obra derivam em grande medida dessa disposição a alterar estrategicamente, no plano da linguagem (poética e cênica), certas regras do jogo das forças sociais a fim de torná-lo mais dinâmico e produtivo, buscando continuamente na experiência artística aquilo que no mundo presente faz brecha, como que anunciando o advento de algo qualitativamente novo.

A revista fecha com a tradução de duas pequenas parábolas de Kafka: Nosso caminho Os segredos do poderoso. A totalidade se expressa enigmaticamente como o vazio e a confusão do presente – legíveis criticamente, talvez, caso levarmos em conta o que se deposita no fundo da forma de regulação social imposta pelo estado de exceção mundial.

Fevereiro de 2012

[-] Sumário #8

Editorial

Entrevista

Sionismo, antissemitismo e a esquerda
com Moishe Postone

Artigos

Antissemitismo e nacional-socialismo
Moishe Postone

O Antropoceno como alienação
Crítica da economia política do aquecimento global
Daniel Cunha

O capitalismo como estado de exceção permanente
Cláudio R. Duarte

Severas alegrias da lógica
Brecht, didatismo e dialética
Raphael F. Alvarenga

Traduções literárias

Nosso caminho e Os segredos do poderoso
Franz Kafka


Sinal de Menos #7

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Após um intervalo maior do que os anteriores, eis aqui o novo número de Sinal de Menos, com capa reproduzindo obra de Ludwig Meidner. Ao que tudo indica, a revista passará a ser semestral.

Talvez a novidade desta edição seja o aparecimento de alguns temas ainda não abordados em nossas páginas. A crítica da mercadoria e do trabalho é aqui ampliada pela crítica da agricultura capitalista e da dita “ciência marxista” nos moldes do objetivismo da ciência positivista. Por outro lado, o Maio de 68 visto por um de seus principais interlocutores marxistas – Henri Lefebvre –, vem de par com a releitura crítica da obra de Herbert Marcuse, particularizada pelo foco na questão do trabalho. Eis os assuntos dos quatro primeiros artigos.

Desde a Revolução Industrial, o capitalismo aparentemente superou os temores de escassez da produção de alimentos. Os “críticos” da agricultura então quase se restringiram à temática da distribuição. Entretanto, os métodos de produção capitalista de alimentos começam a esbarrar em seus limites ecológicos e em suas contradições internas, como já em seu tempo conceituou Karl Marx. Em seu artigo “Malthus reloaded?”, Daniel Cunha mostra o conjunto de tendências que aponta para uma crise de produção de alimentos no século XXI, assim como busca indicar as potencialidades de alguns movimentos que vão em direção à reconfiguração do metabolismo social com a natureza.

O artigo de Maurílio Lima Botelho, “Dialética da natureza e objetivismo”, retoma a crítica da dialética como “visão de mundo” a-histórica. Aquilo que em Marx se tornou uma concepção histórico-materialista e crítico-negativa da sociedade da mercadoria torna-se no marxismo vulgar uma teoria reificada, que se põe como a teoria e o método abstrato das “leis objetivas” da história em geral. O autor mostra a conexão histórica desse movimento de abstração epistemológica com a industrialização retardatária na Europa, especialmente na Alemanha.

O texto de Joelton Nascimento, “Marcuse e a questão do trabalho”, retoma o percurso do filósofo alemão, da concepção ontológica do trabalho à crítica do “princípio de desempenho”, a partir de obras como Razão e Revolução, O marxismo soviético e Eros e Civilização, momentos sucessivos de uma ampliação da crítica da civilização moderna, nosentido de uma crítica integral do modo de vida regido pelo desempenho instrumental e produtivista. O texto aponta ainda quais seriam os limites e os pontos cegos dessa crítica.

O artigo de Glauber L. Xavier – “Sujeito e modernidade – a revolução urbana e o maio de 68 na França” – repassa as discussões de Henri Lefebvre a respeito do maio de 68, principalmente com base no ensaio A irrupção, publicado logo após os eventos. A luta dos estudantes não pode ser dissociada da cidade como lugar da reunião e do uso e do conceito lefebvriano de “revolução urbana”.

O segundo artigo de Íris N. do Carmo publicado na revista – “Gênero e trabalho revisitados” – revisita o conceito de “trabalho doméstico” por meio do confronto dos textos teóricos de Helena Hirata e Roswitha Scholz, promovendo o debate crítico e o esclarecimento das posições e dos conceitos produzidos pelas duas autoras.

Por fim, o ensaio de Cláudio R. Duarte – “O spleen da cidade sitiada” – é uma leitura de partes fundamentais das Fleurs du Mal de Baudelaire, as seções “Tableaux Parisiens”, “Révolte” e “La mort”, sob a luz dos massacres de 1848 e do Segundo Império de Napoleão III. Além de revelar significados alegóricos insuspeitados em poemas canônicos como “Paysage”, “Crépuscule du soir”, “Rêve parisiene “La mort des pauvres”, o interesse do texto é mostrar o movimento lógico do livro e de cada seção em particular, coisa em geral negligenciada pela crítica fragmentária de poemas isolados.

A revista conclui com a seção de “traduções”, em que aparece uma tradução de um poema cortado das edições brasileiras de Fleurs du Mal, um esboço de epílogo para a segunda edição do livro. Os versos revelam claramente, quase em ritmo de síntese da obra, o contexto francês iniludível de 1848 e do Segundo Império.

Agosto de 2011

[-] Sumário #7

Editorial

Artigos

Malthus reloaded?
A produção de alimentos na encruzilhada da história
Daniel Cunha

Dialética da natureza e objetivismo
Maurílio Lima Botelho

Marcuse e a questão do trabalho
Joelton Nascimento

Sujeito e modernidade
A revolução urbana e o maio de 68 na França
Gláuber Lopes Xavier

Gênero e trabalho revisitados
O trabalho doméstico hoje sob as lentes de Helena Hirata e Roswitha Scholz
Íris Nery do Carmo

O spleen da cidade sitiada
Esquema de “Tableaux parisiens”, “Révolte” e “La mort”
Cláudio R. Duarte

Traduções literárias

Esboço de um epílogo para a segunda edição das “Flores do Mal”
Charles Baudelaire

Sinal de Menos #6

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A edição No. 6 de Sinal de Menos gira em torno das seguintes questões: como a literatura tem representado a cultura dos marginalizados na sociedade moderna? Como o que está “à margem” da sociedade, incluindo aí o inconsciente de seus sujeitos, irrompe nas relações sociais?

A seção de ARTIGOS abre com um ensaio de CLÁUDIO R. DUARTE sobre O Castelo de Franz Kafka. O autor esboça as linhas fundamentais de sua construção e mostra por que este é talvez o romance mais complexo de Kafka, sintetizando momentos fundamentais de sua obra, pois além da dominação e da alienação, ele introduz de forma poderosa a irredutível não-identidade da figura de K.

A seguir, temos dois ensaios sobre o romance Berlin Alexanderplatz de Alfred Döblin. O primeiro, de RAPHAEL F. ALVARENGA, procura integrar à explicação materialista a dimensão mítico-religiosa deste que é um “romance de formação” de um marginal, inscrevendo a obra no conturbado contexto político e cultural da República de Weimar, a cujo destino está enredado o de suas personagens. O texto de GABRIELA S. BITENCOURT busca, a partir da análise de alguns elementos formais da representação do espaço urbano no livro, discutir quais os desdobramentos do uso da montagem e como, por meio dela, a configuração da “metrópole literária” afeta a forma do romance.

Em seguida, DANIEL GARROUX faz uma leitura de Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdinand Céline, sob o ponto de vista da ruptura da forma realista tradicional. Ao colocar seu leitor diante de um fluxo discursivo não-linear que emana de uma consciência cindida a narrativa subverte alguns dos pressupostos de que o gênero do romance havia se servido até então. O ensaio desenha a experiência social de fundo sedimentada no romance.

No próximo artigo, CÉSAR TAKEMOTO tenta repensar a centralidade do evento da guerra de Canudos para a configuração artística de duas obras importantes da literatura brasileira do século XX: Os Sertões de Euclides da Cunha e Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Para tal, o autor se utiliza de uma crônica de Machado de Assis para daí avançar alguns pontos na interpretação de uma determinada constelação histórica brasileira.

Em seu artigo, HELENA WEISZ acompanha a trajetória do mais ambicioso projeto do escritor brasileiro Aníbal Machado. Um livro que começou a ser escrito ainda no primeiro Modernismo, acompanhou todos os percalços e contradições desse movimento e só foi terminado em 1964.

Fechando a “sessão brasileira”, CARLOS PIRES analisa um balanço histórico da música popular e das transformações do Brasil, desde o final da década de 1960, feito por Caetano Veloso, em 1993. Essa reconstrução da história recente do país reposiciona o tropicalismo como um evento sem certas linhas de força, que são centrais para entendê- lo. A análise busca compreender qual o sentido desses apagamentos pontuais, que aparecem quase como sintomas no discurso de Veloso.

O último ensaio, da autoria de NILS GÖRAN SKARE, pensa a cotidianidade, no sentido de Henri Lefebvre, sob o ponto de vista da teoria lacaniana do discurso, em suas modalidades fundamentais (a do mestre, a do universitário, a da histérica, a do analista e, por fim o “dialeto” do capitalista). Se o cotidiano é o lugar potencial do acontecimento, o capitalismo, segundo o autor, seria um sistema que busca administrá-lo e, no limite, evacuá-lo do cotidiano.

A seção de TRADUÇÕES LITERÁRIAS traz uma variante da abertura de O Castelo de Kafka, que lança certa luz sobre o caráter da luta de K. no romance, e um pequeno conto de ALFRED DÖBLIN (“A Bailarina e o corpo”), ambos traduzidos diretamente do alemão.

Lembramos que a revista vem aceitando contribuições. O próximo número trará uma entrevista com Robert Kurz, repensando temas de seu livro seminal, O colapso da modernização, após 20 anos de sua publicação.

DEZEMBRO de 2010

[-] Sumário #6

Editorial

Artigos

Aproximações d’O castelo de Kafka
Cláudio R. Duarte

O velho mundo precisa sucumbir
Mito e história em “Berlin Alexanderplatz”
Raphael F. Alvarenga

A fratura da forma
Constituição e implicações da representação da metrópole em “Berlin Alexanderplatz”
Gabriela Siqueira Bitencourt

Louis-Ferdinand Céline
“Voyage au bout de la nuit” e a crise do realismo
Daniel Garroux

Da centralidade de Canudos
César Takemoto

João Ternura
Um livro à revelia do próprio autor
Helena Weisz

Otimismo e sebastianismo na história recente da tropicália
Carlos Pires

O dia-a-dia colonizado
Lacan, Lefebvre e os eventuais discursos cotidianos
Nils Göran Skare

Traduções literárias

Variante da abertura de O castelo
Franz Kafka

A bailarina e o corpo
Alfred Döblin

Sinal de Menos #5

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Esta edição No. 5 de Sinal de Menos concentra-se em dois grandes temas: as questões urbanas (do movimento político brasileiro às perspectivas teóricas abertas por Constant Nieuwenhuys, por Guy Debord e os Situacionistas e por Henri Lefebvre até questões sobre o jogo e a crítica do moderno futebol-empresa) e as formas como Machado de Assis e Joseph Conrad representaram literariamente a modernização capitalista periférica em plena “era dos impérios”. A capa de Raphael F. Alvarenga teve a missão quase impossível de ilustrar estas duas linhas temáticas.

A edição começa com uma ENTREVISTA com o historiador MARCO FERNANDES, doutor em Psicologia Social pela USP e ex-militante do MTST. A conversa leva-nos por um percurso acidentado de conquistas e derrotas nos movimentos políticos brasileiros: do PT e o esvaziamento do trabalho de formação de bases à história das CEB’s e do movimento anarco- sindicalista no início do século passado.

Na seção de ARTIGOS, trazemos alguns textos sobre o projeto New Babylon, do pintor e arquiteto holandês CONSTANT NIEUWENHUYS, que pôs a sua imaginação a serviço do mundo pós-trabalho: o primeiro de GUY DEBORD (“Constant e a via do urbanismo unitário”), o segundo e o terceiro da autoria do próprio CONSTANT (“New Babylon – Um esboço para uma cultura” e “Descrição da zona amarela”, ambos, aliás, traduzidos dos originais). Segue-se uma apresentação desta problemática (“Um projeto em construção – Uma deriva pelo espaço-tempo de New Babylon”), feita por DANIEL CUNHA e RAPHAEL F. ALVARENGA.

A seguir, temos o ensaio de CLÁUDIO R. DUARTE, “Espaço social e sobrevivência do capitalismo – A teoria da reprodução social de Henri Lefebvre”, que estuda parte significativa da obra de Lefebvre, um importante interlocutor de Constant e dos Situacionistas. O texto mostra a atualidade da crítica lefebvriana da produção e reprodução do espaço social no capitalismo contemporâneo, tentando analisar o que o pensador francês denominava “contradições do espaço”.

Nos antípodas do clima geral de festa de copa do mundo, em “Futebol, capital, sadomasoquismo – O espetáculo como pseudo-jogo perverso”, CLÁUDIO R. DUARTE trata a questão da degradação do jogo em espetáculo capitalista e em uma espécie de “montagem perversa”, operante em sua racionalização, canalizando e desviando a violência social para fora do foco das relações sociais de dominação, com a constituição de um semblante de potência grupal e nacional, em que todos servem como instrumentos de gozo.

Por fim, chegamos à subseção literária. Em “Pacto com as trevas – Uma leitura materialista de Heart of Darkness”, RAPHAEL F. ALVARENGA e CLÁUDIO R. DUARTE analisam a novela de Conrad e tratam de pôr no lugar inúmeras peças de um grande quebra- cabeça materialista, que há mais de um século vem enfeitiçando a crítica. A posição correta do problema desvenda o pacto com o fetiche vivo, rastejando no coração “branco” das trevas coloniais africanas.

O último artigo, de CLÁUDIO R. DUARTE, “A loucura com método – O Delírio e o Humanitismo em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba” faz uma leitura das duas mais célebres “philosophias” da obra machadiana, apontando em seu caráter enigmático – e só na aparência “carnavalesco” – a relação histórica com o laço social perverso e fetichista constituído na periferia do sistema, aproximando-se, nas linhas de fuga de seu movimento, com o estudo anterior sobre Conrad.

A seção de TRADUÇÕES LITERÁRIAS conta dessa vez com um pequeno texto de BERTOLT BRECHT, “O soldado de La Ciotat”, com tradução e introdução (“No tempo petrificado”) de RODRIGO CAMPOS CASTRO.

Na última seção, LEITURAS E COMENTÁRIOS, nosso resenhista quase oficial e infalível, JOELTON NASCIMENTO, escreve sobre o livro de Celso N. Kashiura Jr. (“Crítica da igualdade jurídica – Contribuição ao pensamento jurídico marxista”).

Como sempre, nossa expectativa é que estes textos alimentem novas discussões. A Revista vem aceitando contribuições. Os primeiros números estão à venda em papel (contate-nos para mais informações). Até a próxima edição!

Junho de 2010

[-] Sumário #5

Editorial

Entrevista
A crise do PT e do trabalho de base no Brasil com Marco Fernandes

Artigos

Dossiê “Constant” – Nota editorial
Raphael F. Alvarenga e Daniel Cunha

Constant e a via do urbanismo unitário
Guy Debord

New Babylon
Um esboço para uma cultura
Constant Nieuwenhuys

Descrição da Zona Amarela
Constant Nieuwenhuys

Um projeto em construção
Uma deriva pelo espaço-tempo de New Babylon
Daniel Cunha e Raphael F. Alvarenga

Espaço social e sobrevivência do capitalismo
A teoria da reprodução social de Henri Lefebvre
Cláudio R. Duarte

Futebol, capital, sadomasoquismo
O espetáculo como pseudo-jogo e montagem perversa
Cláudio R. Duarte

Pacto com as trevas
Uma leitura materialista de “Heart of Darkness”
Raphael F. Alvarenga e Cláudio R. Duarte

A loucura como método
O Delírio e o Humanitismo nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”
Cláudio R. Duarte

Traduções literárias

No tempo petrificado
Introduzindo Brecht
Rodrigo Campos Castro

O soldado de La Ciotat
Bertolt Brecht

Leituras e comentários

A igualdade jurídica sob suspeita
Joelton Nascimento

Sinal de Menos #4

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Esta edição No. 4 de Sinal de Menos destaca o “Brasil” como tema. Ganha centralidade, assim, algo que nas outras edições tinha sido mais ou menos tangenciado ou constituído o pano de fundo das análises.

A edição abre com uma ENTREVISTA com o crítico literário e teatral JOSÉ ANTÔNIO PASTA, professor de Literatura Brasileira na USP. A conversa gira em torno de temas caros ao pensamento crítico nacional, tais como a questão da formação, o lugar de Machado de Assis na literatura brasileira e mundial, sua relação com outros importantes escritores do país, a velha questão do “dualismo estrutural”, entre outros.

Na seção de ARTIGOS, publicamos um importante ensaio traduzido de JOSÉ ANTÔNIO PASTA, Volubilidade e idéia fixa (O outro no romance brasileiro) – que apresenta, originalmente para um público estrangeiro, alguns aspectos de uma lógica de base da narrativa brasileira e machadiana em especial, a partir da combinação das noções de volubilidade e idéia fixa. Donde ainda são derivadas, pelo autor, outras figuras com alcance de decifração da literatura e da sociedade.

Em seguida, temos o ensaio de CLÁUDIO R. DUARTE, O Brasil n’ O espelho de Machado de Assis – Fisionomia da dominação social e territorial brasileira, que estuda o célebre conto de Machado de Assis, apontando, nos passos de John Gledson, a importância dos significantes históricos do texto. A partir daí e da contribuição de J. A. Pasta, pode-se reler em todo o conto a imagem evanescente e traumática de um Brasil escravista que se desintegra e só se unifica à força, por meio dos poderes imperiais.

Temperando o clima geral de festa com a escolha da “cidade maravilhosa” para sediar os J. O. de 2016, em Bem-vindos ao deserto do Rio! Observações sobre a guerra social em curso, RAPHAEL F. ALVARENGA chama atenção para a onda reacionária que tomou conta da cidade no ano que passou, com destaque para o recrudescimento da repressão policial e para as políticas de contenção social da pobreza.

O próximo artigo, de DANIEL CUNHA, Queimando o futuro?, se propõe a analisar a questão do pré-sal do ponto de vista da emancipação social, expondo o beco sem saída da dependência do petróleo e as potencialidades emancipatórias de tecnologias alternativas.

Por fim, temos outro artigo de CLÁUDIO R. DUARTE, Uma poética do desterro Drummond e a formação suspensa em Fazendeiro do Ar. Trata-se de um estudo sobre esse livro específico do poeta mineiro e que busca mostrar, a partir da análise de sua armação lógica e de seu poema de abertura, a densidade de relações históricas nele contidas, que expressam dolorosamente o caráter problemático e interrompido da formação individual e social no país.

Na última seção, LEITURAS E COMENTÁRIOS, JOELTON NASCIMENTO escreve sobre um livro recente de Alysson Mascaro, Utopia e Direito, que versa sobre as possibilidades críticas do pensamento de Ernst Bloch.

Nossa expectativa é que a leitura desses textos alimente novas discussões. Aliás, a Revista aceita contribuições para as próximas edições. Até a próxima.

Fevereiro de 2010

[-] Sumário #4

Editorial

Entrevista com José Antonio Pasta

Artigos

Volubilidade e ideia fixa
(O outro no romance brasileiro)
José Antonio Pasta

 O Brasil n’O espelho de Machado de Assis
Fisionomia da dominação social e territorial brasileira
Cláudio R. Duarte

Bem-vindos ao deserto do Rio!
Observações sobre a guerra social em curso
Raphael F. Alvarenga

Queimando o futuro?
O pré-sal como ilusão tardia e alavanca emancipatória
Daniel Cunha

Uma poética do desterro
Drummond e a formação suspensa em Fazendeiro do Ar
Cláudio R. Duarte

Leituras e comentários

A justiça que vem
Ou por que alguns princípios arquijurídicos podem ser também princípios pós-jurídicos
Joelton Nascimento

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    1984-8730
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